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A Terceira Margem – Parte CLXIII - Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXXIX Kampũ – a Vacina do Sapo II
A Terceira Margem – Parte CLXIII - Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXXIX Kampũ – a Vacina do Sapo II...
Publicado Terça-Feira, 2 de Março de 2021, às 09:32 | Fonte Gente de opinião 0

 
 

Foto: Divulgação/Internet

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXXIX

Kampũ – a Vacina do Sapo II

 

Aplicação é Indolor e os Efeitos Imediatos

 

A coleta da substância da rã é feita sem machucá-la, no tempo certo e na lua certa. Conhece-se o animal pelo canto. Logo que a secreção é retirada, ele é devolvido à mata. Após seis meses, a rã pode ser reutilizada. Na aplicação não se utilizam agulhas. São feitos os pontos para introduzir a vacina no organismo com um cipó em brasa [lembra um incenso], fazendo uma leve escamação na pele. Em contato com a pele, retira um pedaço pequeno, deixando a circulação exposta, onde é aplicada a substância. O cipó usado é anti-inflamatório e, após a aplicação, não são necessários cuidados especiais, pois a cicatrização dos pontos é rápida. O tratamento é composto de 3 aplicações com intervalo de 30 dias.

O Soldado Délcio Ubim Tesquim, do 61° BIS e membro da Terra Indígena Puyanawas [Dukuda Kayapaika], Município de Mâncio Lima, apresentou-nos ao Pajé José Luiz [Puwẽ].Infelizmente, não conseguimos realizar a aplicação da Vacina do sapo na quarta-feira, 02.12.2013, como era nossa intenção, o Pajé afirmou que tinha usado seu último estoque da secreção e agendamos, então, para o dia seguinte.

 

No dia, 03.12.2013, Chegando cedo à Aldeia, o Pajé José Luiz, devidamente paramentado, levou-nos até a Arena, conhecida por eles como “Casa, Floresta de Todos Nós” [Dimanã Ẽwê Yubabu] onde realizam diversos eventos culturais, entre eles os “Jogos da Celebração”.

 

Eu e o Marçal fomos orientados a beber goles generosos de Caiçuma. Sou abstêmio convicto, mas o Pajé garantiu que a bebida tinha um teor alcoólico bastante baixo e fazia parte do ritual, por isso, bebi. Após a ingestão da bebida, fomos levados por uma trilha para o interior da mata onde ingerimos mais caiçuma. O Soldado Tesquim foi encarregado de fazer as tomadas das cenas. O Pajé preparou um cipó-titica  e com ele em brasa somente aproximou-o de meu braço, fazendo cinco aplicações com o intuito de remover parte da pele, o processo foi totalmente indolor já que o cipó é um poderoso analgésico.

 

Após isso, adicionou um pouco de água a uma pequena espátula de madeira onde se encontrava a secreção do Kampũ. Passou então uma pequena porção da mistura em cada um dos cinco pontos preparados do braço esquerdo.

 

O Soldado Tesquim, nesse momento, aproximou-se dizendo que a máquina estava sem memória para continuar as gravações. Eu tinha esquecido de deletar as fotografias anteriores, tentei removê-las, mas o efeito da vacina já começara a agir, passei a máquina para o Marçal que limpou a memória toda, por isso perdemos a gravação da primeira parte do ritual.

 

Fui orientado pelo Pajé a me deitar nas palhas que haviam sido colocadas para isso e literalmente apaguei, não sei como cheguei até lá. Comecei a vomitar e o Pajé e seus assistentes, Isa e Xĩdu procuraram me deixar sentado. Só fiquei sabendo disso, depois, pelas gravações. Durante todo o tempo, tivemos acompanhamento constante do Pajé e de seus assistentes. Volta e meia ele vinha até nós e lançava sobre nossos corpos a fumaça do cachimbo. Os mesmos procedimentos foram aplicados ao Marçal que teve uma reação muito melhor que a minha.

Levei trinta e dois minutos para ter condições de me levantar, depois de ter vomitado diversas vezes.

 

Fomos levados então para tomar um banho nas águas geladas do Igarapé Traíra. Foi um banho revigorante após o qual nos sentimos em condições de voltar à Aldeia. Na casa do Pajé experimentei o rapé já que, desde o ritual, saía de minhas narinas uma abundante secreção. Ficamos conversando sobre a cultura dos nativos e de como as novas religiões trazidas para as Aldeias pelos Padres e Pastores vêm determinando a perda de identidade dos povos. A esposa do Pajé, a Sra. Awĩ Vari (Mulher Sol), se prontificou a fazer uma pintura de jenipapo no meu braço direito e no do Marçal.

 

Embora não tenha sentido nenhuma melhora aparente, a experiência bastante interessante que guardaremos com carinho por toda a vida, mas, muito além disso, foi importante reconhecer no jovem casal dois guerreiros que trabalham e lutam para manter viva sua cultura e a identidade de seu povo.

 

Potencial Econômico da Biodiversidade

 

O Brasil ocupa o primeiro lugar em biodiversidade do globo terrestre mas, mesmo assim, estimativas do IBAMA indicam que menos de 1% das espécies brasileiras são conhecidas pela ciência e que provavelmente grande parte delas estarão extintas antes de terem sido descobertas ou analisadas pelos pesquisadores. A biotecnologia é uma opção importante de desenvolvimento sustentável na região amazônica que, além de justificar a preservação dos biomas naturais, vai alavancar o conhecimento sobre a sua biodiversidade. Vejamos o artigo sobre “Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável” elaborado por Leonel Graça Generoso Pereira, Maurício Amazonas e Bruno Filizola.

 

No século XXI, o mercado mundial abre perspectivas totalmente inovadoras, nas quais se direciona grande esforço na busca de novos produtos para fins medicinais, cosméticos, suplementos nutricionais, produtos agrícolas, entre outros, voltados ao prolongamento da vida com qualidade.

 

Exemplos dessas inovações não faltam. Só em 1998, os medicamentos movimentaram 300 bilhões de dólares em todo o mundo, sendo que 40% dos produtos têm origem direta ou indiretamente de fontes naturais.

 

No Brasil, as vendas atingiram a marca de 11 bilhões de dólares, havendo ainda um espaço enorme para ampliação desse mercado. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [IPEA] estimou em pelo menos 2 trilhões de dólares o valor potencial do banco genético brasileiro.

 

Só na floresta tropical, pesquisas recentes apontam para um potencial de mais de trezentos novos bioprodutos, derivados de produtos naturais disponíveis. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam para a utilização de plantas na cura de enfermidades por parte de 85% da população mundial [cerca de 4 bilhões de pessoas].

 

Cerca de 20% de todo o faturamento das empresas de produtos farmacêuticos é empregado na descoberta de novas drogas. Dentre estas, o mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria, cosméticos, principalmente no que se refere às lifestyles drugs, drogas que reúnem saúde e rejuvenescimento, vem apostando alto nas inovações, especialmente na diversificação de insumos naturais provenientes das florestas tropicais.

 

O faturamento nacional desse setor atingiu, em 1999, a marca dos 12 milhões de dólares. Dentro desse processo, os produtos farmacêuticos de origem natural ganham terreno e já representam 17% do mercado mundial.

 

As florestas tropicais úmidas são, também, ricas fontes de microorganismos, fontes potenciais de novos compostos de ação antibiótica e de drogas imunodepressoras, as quais, entre outros importantes resultados, aumentam consideravelmente o grau de sucesso de transplantes de órgãos. Outra área de interesse é a pesquisa de toxinas encontradas em venenos e peçonhas de animais.

 

No escritório de Patentes do Governo dos Estados Unidos, foram registradas, recentemente, diversas patentes de toxinas de aranhas e escorpiões, sendo algumas de bioinseticidas seletivos, princípios neurobloqueadores e substâncias terápicas para doenças cardíacas; além de registros de patente de toxinas de serpentes, sendo a maioria voltada para o uso em terapias de controle de pressão arterial.




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