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Covid-19: “Vi coisas estranhas aqui mas isto tem sido o mês mais surreal da minha vida”: o relato da quarentena de um jornalista em Shanghai
Michael Smith é correspondente de um jornal australiano em Shanghai, na China, e esteve em quarentena durante oito dias. As regras variam de bairro para bairro e o poder vive muito nos ''exércitos de voluntários comunitários''. Afinal, como é estar em quarentena e temer um vírus mortal? Este jornalista conta tudo através de audios no WhatsApp
Publicado Sábado, 22 de Fevereiro de 2020, às 08:36 | Fonte Expresso 0

 
 

D.R.

 

Sou o Michael Smith, o correspondente na China do jornal australiano “Financial Review”, o diário nacional de negócios. Estou baseado em Shanghai, onde estou a viver há dois anos. Estava em Shanghai durante o ano novo chinês, em janeiro, quando ficámos a saber que este surto de coronavírus não estava limitado à cidade de Wuhan, era um problema que se expandia pela China.

Shanghai, como qualquer outra cidade, registou várias infeções: à volta de 300 casos na cidade. Não é dos mais altos na China, mas é, ainda assim, sério. Tem havido preocupações sérias sobre a contenção do surto aqui. Durante o ano novo chinês, a cidade paralisou, muita gente saiu da cidade em férias. Mas as coisas nunca recuperaram, por isso a cidade tem sido uma cidade-fantasma nas últimas quatro semanas. Andas na rua e não está ninguém. A maioria das lojas estão fechadas. Ainda consegues comida, mas está tudo praticamente encerrado.

Há oito dias, visitei Hong Kong, por cinco dias, para me encontrar com algumas pessoas. No meu regresso a Shanghai, cheguei ao meu condomínio e os seguranças disseram-me que tinha de fazer uma quarentena em casa durante 14 dias. Isto foi uma nova regra que implementaram para qualquer pessoa que tivesse deixado a cidade. Não interessa se foste a Wuhan ou não. Suspeitei que isto podia acontecer, ouvi vários relatos de amigos que regressavam. As novas regras são diferentes dependendo de onde vives, são diferentes para todos os condomínios, são diferentes para cada bairro. É determinado, no fundo, por voluntários comunitários que reportam ao governo local, por isso têm muito poder a determinar os teus movimentos e o que estás autorizado a fazer.

 

D.R.

 

Eu estive em quarentena em casa durante oito dias. Fui autorizado a sair do condomínio duas vezes para ir às compras, muito brevemente. O meu escritório é em minha casa, por isso pude continuar a trabalhar. O meu colega foi autorizado a vir para minha casa para trabalhar comigo. As regras da quarentena podem parecer estranhas para muita gente, pois continuas autorizado a contactar com pessoas…

Eles chamam-lhe quarentena voluntária ['self quarantine'] mas, na verdade, não fui autorizado a sair de casa, por isso foi uma quarentena forçada. Todos os outros vizinhos no meu condomínio estão sujeitos a regras apertadas: têm de ter uma licença ou um voucher que permite a uma pessoa da casa sair para ir às compras.

Durante a minha quarentena, costumo acordar à hora habitual pela manhã. Levo o cão lá fora, há uma espécie de longa pista [ou corredor] no condomínio. Vou para trás e para a frente com o cão. Tento correr um bocadinho, recebo uns olhares estranhos dos vizinhos. Tento estar lá fora um bocado e apanhar ar fresco, mas não podes andar até muito longe. Para mim, um jornalista, são tempos em que estão a acontecer muitas coisas na China. Há grandes histórias, por isso tendo a estar no escritório a trabalhar como de costume, agarrado ao telefone e a escrever. Já estou adaptado a esta rotina. Comprei muita comida, mandei vir muita comida cá para casa, ainda posso cozinhar. Neste momento estou a morar sozinho, os meus colegas estão fora. As noites são muito solitárias. Acabo por ver muita televisão, Netflix e tento ler alguns livros.

Num primeiro momento é muito relaxante. Todos temos vidas ocupadas, de certa maneira queremos este tempo em casa para ler e relaxar. As primeiras noites correram bem, mas, quatro ou cinco dias depois, torna-se muito aborrecido. Sentes-te sozinho, sentes-te a sufocar ['you feel the walls closing in']. Sentires a liberdade ser-te retirada não é um sentimento simpático, tal como saber que não podes ir lá fora, sair pelo portão e ir a qualquer lado.

A minha quarentena era suposto ser de 14 dias, mas descobri ontem [terça-feira] que a encurtaram. Só tive de fazer durante oito dias. Hoje é sexta-feira e recuperei a minha liberdade. Disseram-me que posso obter uma licença que me autoriza a sair do complexo. Estou agora prestes a fazê-lo. Posso sair, ir à rua, estou livre para vadiar na cidade. É um grande sentimento.

Estas regras em Shanghai, tal como na maioria das outras cidades chinesas, são definidas ao nível do governo distrital. Houve, aparentemente, queixas de residentes em Shanghai sobre as regras não serem apertadas o suficiente. Estavam preocupados por terem estranhos no seu condomínio, com os vizinhos e a possibilidade de estes terem contraído o vírus. Houve pressão sobre o governo local, aqui e em muitas outras zonas da China, para fazerem as regras mais estritas. As pessoas queriam mesmo regras draconianas que, em países como Portugal ou no meu, Austrália, seria impossível aplicar. Mas aqui as pessoas são mais obedientes. As regras parecem ser supervisionadas por uma espécie de exército de voluntários comunitários que vigiam todos os condomínios residenciais. Eles reportam tudo às autoridades locais. Têm, por isso, alguma autoridade e poder. A maioria dos condomínios, como o meu, tem um par de seguranças no portão principal. São eles que controlam os movimentos das pessoas. Medem-te a temperatura quando entras e sais.

As regras são pouco claras, podem mudar de vez em quando e são diferentes para cada área na cidade. Muitos dos meus amigos voltaram a Shanghai e não tiveram de fazer qualquer quarentena em casa. Depende de onde vives.

Há uma aplicação para smartphone e muitas empresas pedem às pessoas para fazerem o download, isto antes de serem autorizadas a regressar ao trabalho. Eu não tive de fazer o download, sou um jornalista a trabalhar aqui, sozinho e em casa. A minha empresa não me faz sacar esta aplicação, mas sei de alguns amigos que não foram autorizados a entrar no edifício onde trabalham enquanto não fizessem o download dessa app. Esta app permite às empresas rastrearem onde as pessoas estiveram nos últimos 14 dias. Conseguem ver exatamente onde essas pessoas estiveram. O objetivo principal é o de garantir que essas pessoas não estiveram na cidade de Wuhan, na província de Hubei, no centro da China, onde se localiza o epicentro do surto e onde estão a maioria das infeções. Querem ter a certeza de que, quem regressa às grandes cidades como Shanghai, não estiveram na área onde o risco de infeção é alto. Mas nem toda a gente teve de ter isto [a app].

O humor mudou muito. Diria que, há duas semanas, havia muito medo, eram tempos muito sombrios. Ninguém sabia realmente o que estava acontecer com este vírus, a taxa de infeção subia todos os dias. Muita gente aqui não confia no que o Governo diz, não confiam nos números oficiais. Havia uma sensação de que podias estar encurralado: as companhias aéreas estavam a cancelar voos, muitos países, incluindo o meu, estavam a proibir visitantes oriundos da China e muitos dos meus amigos locais, amigos chineses, estavam muito deprimidos. Estavam presos em casa com as suas famílias. Muitos deles têm filhos pequenos e não saíram muito no último mês. Havia muita ansiedade a afetar o humor, havia muita ansiedade por causa do vírus em si.

 

D.R.

 

Mas, para mim, as hipóteses de ter uma infeção eram muito baixas. Eu estava mais preocupado com o que o Governo podia fazer a seguir: será que podiam chegar aqui e, tal como fizeram em Wuhan, colocar uma cidade como Shanghai em 'lockdown'?

Esta sexta-feira, o humor mudou mesmo. Todos estão muito mais otimistas, parece que a taxa de infeção está a descer. Há muito mais gente na rua, muitos mais carros. Acho que as pessoas têm a sensação de que isto pode acabar em breve. Há otimismo. É claro que isto é a Chinae por isso há muito ceticismo relativamente ao que o Governo está a dizer. Acho mesmo que estamos a aproximar-nos do fim desta situação. Não importa o que pensas do Partido Comunista e estas medidas draconianas, em que colocaram em 'lockdown' a população, até parecem ter resultado. As pessoas não tiveram contacto entre elas. O vírus não está a expandir-se numa cidade como Shanghai. Parece sob controlo.

O que penso desta situação toda? Estou na China há dois anos e já vi algumas coisas estranhas, mas isto tem sido o mês mais surreal da minha vida. Quer dizer, a viver num lugar qualquer completamente em 'lockdown', com um vírus mortal à volta. Não ter ideia de como a situação se vai desenrolar e ver uma grande cidade como Shanghai, que é incrivelmente movimentada, completamente vazia. É como uma cidade-fantasma, é tão surreal andar nas ruas sem pessoas. Podes imaginar ir a cidades como Paris ou Londres e vê-las completamente vazias. É uma experiência bizarra.

Há um par de coisas que me impressionaram mais. A maneira como amigos e pessoas que conheces se juntam para se ajudarem entre si num momento angustiante. A maioria dos meus amigos abandonaram Shanghai antes de isto começar, mas um grupo pequeno de pessoas que conheço daqui, incluindo vizinhos e pessoas com quem nem tinha muita relação, têm sido incríveis. Todos se preocupam com os outros, toda a gente manda mensagens nas redes sociais para garantir que está tudo bem ou levam comida uns aos outros quando é possível. Tens esse sentimento de comunidade e de haver pessoas que olham umas pelas outras. Pelo outro lado, tem sido uma experiência assustadora, sabendo que estás num país estrangeiro e sem saber se podes sair. E particularmente na China, onde tens um Governo poderoso no qual não confias sempre, é difícil saber como as coisas vão acontecer. Isso pode ser, por vezes, assustador. Mas, de resto, a China é um país muito resiliente. Esta situação toda tem sido uma confusão, mas há muito otimismo de que podem recuperar disto rapidamente.

 







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