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Livro reúne textos de Carlos Drummond de Andrade sobre Machado de Assis
Obra foi organizada pelo professor Hélio Seixas Guimarães
Publicado Sábado, 20 de Julho de 2019, às 12:20 | Fonte Correio Braziliense 0

 
 

(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press - 7/10/10)

A relação entre Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis constitui um enigma na história da literatura brasileira. No ápice do modernismo, Drummond desancou o escritor carioca como um entrave à renovação das letras nacionais. Em 1925, quando tinha 22 anos, o poeta mineiro escreveu no artigo intitulado Sobre a tradição em literatura: “Uma lamentável confusão faz com que julguemos toda novidade malsã, e toda velharia saudável. Este conceito equipara as obras literárias aos xaropes e outros produtos farmacêuticos: quanto mais tempo de uso, mais recomendáveis...”

Essa conexão complexa, contraditória, crítica e preciosa é reconstituída no livro Escritos de Carlos Drummond de Andrade sobre Machado de Assis, organizado pelo professor Hélio de Seixas Guimarães. O poeta de Itabira argumenta que o combate ao passado é condição essencial para a inovação: “Temos, pois, mais que o direito de desrespeitar essa falsa tradição: temos o imperioso dever”, sustenta o poeta. “E só assim faremos dessa matéria morta e pegajosa dos séculos uma argila dúctil que sirva às nossas criações. Será mantendo essa independência espiritual, talvez ingenuamente feroz, mas francamente construtiva, que reataremos o fio tantas vezes perdido do classicismo. Os nossos avós inteligentes não desejariam de nós outra coisa. Copiá-los é o mesmo que injuriá-los”.

Drummond admite a admiração pelo autor de Memórias póstumas de Braz Cubas. No entanto, pondera que esse apreço deve ser sacrificado em benefício da revitalização da cultura: “Amo tal escritor patrício do século 19, pela magia irreprimível de seu estilo e pela genuína aristocracia de seu pensamento. Mas se considerar que este escritor é um desvio na orientação que deve seguir a mentalidade de meu país, para a qual um bom estilo é o mais vicioso dos dons, e a aristocracia um refinamento ainda impossível e indesejável, o que fazer? A resposta é clara e reta: repudiá-lo. Chamemos este escritor pelo nome: é Machado de Assis”.

Em outro artigo, Drummond reconhece, também, que não pode negar o passado, de maneira semelhante a que um enforcado não pode negar a corda que lhe aperte o pescoço: “Mas tenho o direito de declarar que a corda está apertando demais, puxa! E que o melhor é cortá-la de uma vez”. Com a mira em Shakespeare e em Dante, Drummond rechaça a ideia de que o gênio seja tradição: “Pelo contrário. Pois se você gosta deles é justamente porque desrespeitaram a tradição, tiveram a coragem bonita de espirrar com o próprio nariz! Você é hipócrita, leitor”.

A leitura de artigos, crônicas e enquetes, em ordem cronológica, revela uma mudança de perspectiva radical, que atinge o ápice três décadas depois com o poema A um bruxo com amor, em que Drummond reverencia Machado, com todas as letras. Inclusive com a colagem de textos machadianos. Faltou à edição inserir as datas de publicação de cada texto.

Ao longo do percurso, Drummond estabelece uma conexão muito aguda entre Machado de Assis e Rubem Braga: “Pelo estilo, continua um exemplo máximo (e não estou embriagado ao dizê-lo): Machado de Assis. Um Machado tendo a mais a poesia, a dolência e a pura comoção humana, que são dons peculiares ao Braga. Salve, Braga!”

É interessante observar o contraste na própria obra de Drummond: a primeira fase da poesia é de um coloquialismo extremo, enquanto a prosa é marcada por um timbre classicizante machadiano. Quer dizer, desde o início Drummond já continha Machado.

O fato é que passada a fase de demolição crítica de passado, os próprios escritores modernistas beberam nas fontes da tradição para renovar-se. E, nesse processo de reavaliação, Machado foi revalorizado: “Aquele homem aparentemente inserido no estereótipo pequeno-burguês da sociedade imperial, que passou pela vida sem atropelar ninguém e cuidando de não ser atropelado, é um demônio de mil artes, zombarias, negações e imprevistos”, reconhece Drummond.

O poeta itabirano havia lançado o desafio a Machado, se ele resistiria ao tempo e se consolidaria efetivamente na condição de clássico. E o próprio Drummond parece responder ao repto em crônica sobre uma exposição comemorativa a Machado de Assis: Ali está um mundo de criação silenciosa, um exemplo severo e singelo de dissolução da pequenez humana na grandeza intemporal da obra literária. O velhinho gago e burocrata é hoje um universo de símbolos, palavras e achados artísticos, que poder nenhum saberia cassar. Nosso país ficou mais opulento, à custa desse funcionário pobre”.

As últimas fases da poesia de Drummond seriam as de um Machado mineiro com um sentimento do mundo mais agudo. O coloquialismo modernista extremado se funde a um timbre classicizante. Como escreveu o organizador da coletânea, Hélio de Seixas Guimarães, a influência chegou à “compenetração quase física de sua presença no próprio corpo, a ponto de transformar-se em seus ossos, músculos e sangue”.

A leitura dos textos de Drummond sobre Machado revela que a interação entre grandes criadores é tensa, agressiva e contraditória. Se ficasse extasiado diante do brilho de Machado, Drummond não seria Drummond. Os grandes precisam de inimigos poderosos para florescer.

Escritos de Carlos Drummond de Andrade sobre Machado de Assis

Organização de Hélio de Seixas Guimarães. Ed. Três Estrelas/160 páginas

Severino Francisco
 









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