Rondônia, quinta-feira, 9 de setembro de 2010
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8/6/2010 - 20:37 - ( Artigos )

belomonte010210aEis como Belo Monte, mega-projeto hidrelétrico concebido (em pesadelo) para o Vale Xinguano, em pleno coração da Amazônia, não haverá de se constituir em mais um passivo desconcertante e desarrazoado

JOÃO VIEIRA (*)

As incongruências do projeto hidroelétrico de Manso, no Mato Grosso, serve sim de exemplo ilustrativo do que não deve ser feito e a aplicar-se no caso de Belo Monte, mega-hidrelétrica imaginada para o Rio Xingu no Pará. Com efeito, a aritmética simplérrima de custo-benefício, não encoraja mais essa aventura tecnicista para a Amazônia Legal. Como outras tantas de triste memória, por seu resultado adverso ou arrematado fracasso. Sacrifício em vão – para nada! E que de várias e variadas que são, nem cabe enumerar.

Mas cabeça dura ou duríssimos interesses, em afronta ao bem comum ou em desafio ao bom senso, leva a mais esta polêmica, senão mesmo atentado à razão, assim como à sandice do “desenvolvimento” apressado e danoso! Desenvolvimento aspeado, ressalte-se, que atrasa e não adianta. E atropela – ao invés de beneficiar! Desenvolvimento às avessas, de custo impagável, imensurável e de pouco efeito, quando não somente a geração de passivos. Às vezes irreversíveis!

Quanto a Manso, sei do que falo pois pudemos acompanhar de muito perto. Uma obra dispendiosa e que quis justificar-se por seu multiuso, a saber: irrigação, navegação – pela regularização da vazão do rio; suprimento energético resolutivo, racional (???)...

E fui até expectador e mesmo partícipe de um dado transe sintomático da saga de Manso. E que viera ser uma promoção marqueteira visando ao convencimento público, opiniático, das excelências do empreendimento. E cujo projeto havia sido desacreditado – reduzido a pó – pelo hidrologista respeitado, professor Domingos Iglesias Valério, em um relatório produzido por encomenda de sua universidade, a Federal de Mato Grosso. E que entre outras conclusões, esclarecia ser Manso, de fato, uma usina de “ponta” e não de “base” como poderia ser uma outra, muito mais viável – a também projetada “Usina de Couto de Magalhães”; e a ser materializada com o represamento do Rio Araguaia, de maior corpo d`água e em trecho a isso propício.

Acrescente-se que o gigantismo de Manso, para água pouca, a tornaria de precária eficiência para seu elevado custo. E de duvidoso ou remoto multiuso, à hora tão propalado. Tudo mais virou história e consumatum est, “ipsis litteris” valendo dizer como previsto. Manso hoje é uma geratriz limitadíssima de energia, um imenso espelho d´agua suprimindo  terras agricultáveis e criando problemas sociais na região – mas inventando orlas de contemplação e lazer pra quem pode...

Mas, o que tenho a inscrever, para conclusão da presente reflexão, é mais significativo de que todo esse nariz de cera. Reporto-me ao evento de marquetismo pró opinião (publica) favorável ao controverso empreendimento. Para não ser reputado uma exagerança ou feito quimérico como as ideações de um “Brasil Grande”, às custas do banimento da Amazônia (vivaz). Legal. Acontece que um Hotel-fazenda havia sido locado para “coquetel de congraçamento” e despejo da argumentação apologética da obra. E, por fim, conquista de opinião pública leniente ou alinhada e militante se possível!

E como passavam carros em demanda ao referido Hotel, do tal coquetel, na via expressa que margeia o “Campus Gabriel Novis Neves”, da UFMT! Ali, numa noite de bom-clima estávamos, o Dr. Iglesias e eu (de companhia) – ele decerto refugiado ou cansado de pressões pelo dia todo, no sentido de rever o seu relatório, condenatório do Projeto Manso. E zanzávamos pelo “Campus” no seu surrado Volkswagen – ele falando pouco, mas repetindo de quando em vez: “o Relatório não mais me pertence... Tem autonomia – a autonomia da obra criada – não posso (mudá-lo), por nenhum pedido ou dinheiro. Nenhum”...

Como se nota, nem tudo está  perdido. E hoje Belo Monte, no Vale do Xingu, é o empreendimento hidrelétrico grandioso que está em tela, ou melhor dizendo, em questão. O Dr. Iglesias já não mais vive entre nós e não podemos recorrer a seus préstimos técnico-científicos, e razoáveis, para instruir a decisão conveniente. Certa! Mas, haverá certamente   gente à altura da herança de sua fama de competente e de cidadão íntegro. Probo. Incorruptível. Incomprável... Eis como Belo Monte, mega-projeto hidrelétrico concebido (em pesadelo) para o Vale Xinguano, em pleno coração da Amazônia, não haverá de se constituir em mais um passivo desconsertante e desarrazoado. Mais um catatau da ambição desmedida do ter e ter mais – sem fim e nem princípios... (Tenho dito).

(*) É professor-fundador da Universidade Federal de Mato Grosso (aposentado), onde lecionou Sociologia e dirigiu o Museu Rondon

E-mail: joaovieira01@yahoo.com Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

Fonte : JOÃO VIEIRA    Autor : JOÃO VIEIRA
 

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