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A epidemia de gripe espanhola no centro da região produtora da goma elástica na Bolívia (1917 e 1919) e suas analogias com a pandemia atual, pela professora Maria del Pilar Gamarra Téllez.
Faz poucos dias recebi da autora cópia do artigo que segue abaixo...
Publicado Terça-Feira, 12 de Janeiro de 2021, às 09:40 | Fonte Dante Ribeiro da Fonseca 0
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Divulgação

Embarcação no rio Beni[1]

Faz poucos dias recebi da autora cópia do artigo que segue abaixo. Trata-se de publicação feita na Revista Eletrônica Inmediaciones (http://inmediaciones.org/la-combinacion-perfecta-pandemia-y-crisis-socio-economica-en-la-amazonia-boliviana/), de Santa Cruz de La Sierra, Bolívia. O artigo, de autoria da ilustre historiadora boliviana María del Pilar Gamarra Téllez, foi publicado naquela revista em 27 de dezembro de 2020. Há muito tempo, conheço a importante contruibuição que por décadas a professora Gamarra tem prestado ao estudo da Amazônia boliviana. Mais recentemente, estabeleci contato a a pesquisadora pelos meios digitais. Natural do Norte Amazónico boliviano (Rurrenabaque-departamento do Beni), a professora Gamarra é licenciada em História pela Universidade Maior de San Andrés (UMSA - La Paz) e mestre em História Andina (FLACSO-Sede Equador, 1996)). Exerceu a docência na UMSA, La Paz de 1996-2008) onde atingiu o nível de Professora Titular. Exerceu diversos cargos nas áreas de graduação e pós-graduação e pesquisa em instituições de ensino superior bolivianas. É portadora de diversas dignidades honoríficas como a Condecoração Bandeira do Beni, concedida pela Assembleia Legislativa Departamental do Beni (Trinidad, 2020). Recentemente concluiu os siguintes estudos: Amazonía boliviana Construcción del espacio-territorio e identidad regional (1440-2000), Colección Amazonía, 140 años de historia (en preparación de edición), Amazonía boliviana, Región y Estado, Departamentalización y  municipalización (2017). El último Bosque, Mitos, cuentos y leyendas para la lectura infantil (2014).


O artigo da professora Gamarra, que traduzi para o português será publicado abaixo com sua permissão. Fornece uma consistente contribuição para nossa compreensão de um momento da História da Bolívia, mais precisamente do Noroeste Boliviano. Explora um lapso cronológico onde um daqueles círculos viciosos, que de tempos em tempos assolam nossos países, se faz presente. Em outras palavras um tempo onde a combinação dos efeitos da I Guerra Mundial, a queda dos preços da borracha em razão da competição dos mercados fornecedores asiáticos e os efeitos da gripe espanhola causou enormes prejuízos humanos e materiais. Sempre repito que a História não se repete, mas de tempos em tempos apresenta elementos de semelhança. Esse é o caso do estudo da professora Maria del Pilar, onde a crise teve seu momento mais agudo entre 1917 e 1919. Lembra a professora as semelhanças com as reações ao CORONAVIRUS-19, surgido em plena recessão econômica da qual tentávamos sair, fragilizou ainda mais os esforços de recuperação econômica de nossos países, espalhado a doença, a morte e o medo. Vale a pena ser lido.

 

 

Combinação perfeita: pandemia e crise socioeconômica na Amazônia boliviana.

 

 

Repercussões na cidade de Riberalta (1917-1920)[1]

 

María del Pilar Gamarra Téllez / (Historiadora, CEPAAA-Portfólio Amazon)

 


Entre 1917 e 1919 a pandemia de gripe espanhola, também conhecida como febre espanhola, catarro epidêmico, influenza ou “gripe”, atingiu a Bacia Amazônica. Nos estados brasileiros de Rondônia e Mato grosso e na Região Amazônica do Noroeste da Bolívia, adjacente ao Brasil, especialmente na província de Vaca Díez, no departamento do Beni, a terrível doença se alastrou rapidamente. Em Vaca Díez, os produtos da exploração da Hevea brasilienses (seringa) e Castilla ulei (caucho) ficaram armazenados aos milhares de quilos nos seringais. Esses estoques de matéria-prima, estavam à espera de que houvesse a alta nos preços e também a interrupção na difusão da pandemia, para serem comercializados.

A rápida redução dos embarques de goma elástica, resultava de três eventos simultâneos. O primeiro foi a I Guerra Mundial, 1914-

[1] As reportagens aqui consultadas provêm inteiramente do Semanário, “El Comercio”, publicado em Riberalta entre os anos 1917-1919. Neste trabalho acompanhamos as notícias veiculadas neste órgão de imprensa, portanto, certamente há muito mais a se explorar sobre o assunto.

A epidemia de gripe espanhola no centro da região produtora da goma elástica na Bolívia (1917 e 1919) e suas analogias com a pandemia atual, pela professora Maria del Pilar Gamarra Téllez. - Gente de Opinião
1918, que provocou as restrições às exportações, através de uma Lista Negra de empresas vinculadas ao comércio com a Alemanha. Os dois outros foram: gripe espanhola e o influxo da produção das plantações de seringueiras do sudeste Asiático no mercado internacional. De 1913 a 1914 as exportações, principalmente do Arquipélago Malaio (Java, Sumatra e Bornéu) e Cochinchina, superaram as necessidades globais das indústrias consumidoras de “látex”, na Europa e nos Estados Unidos da América. A oferta de matéria prima aumentou em 1918, em razão da assinatura do armistício no dia 11 de novembro em Compiègne, França. Contudo, em 1919 o mercado Sul Americano de goma elástica estava em queda. Nem um único quilo do produto foi vendido no Noroeste Boliviano. A crise foi generalizada, de tal forma que a imprensa da época descrevia a situação com estas palavras: “... A região se encontrava em um período de pauperismo e muito em breve alcançaria a miséria [...] Vivemos o pior dos desastres econômicos.”[1]


[1] “La Gaceta del Norte”, Riberalta, 5 de outubro de 1922, citado em: TÉLLEZ, María del Pilar Gamarra. El Desarrollo Autónomo de la Amazonía boliviana. Procesos socioeconómicos en la Frontera Pionera (1860-2002). La Paz: Centro de Estudios para a América Andina e Amazônica (CEPAAA), 2012, 81.

A epidemia de gripe espanhola no centro da região produtora da goma elástica na Bolívia (1917 e 1919) e suas analogias com a pandemia atual, pela professora Maria del Pilar Gamarra Téllez. - Gente de Opinião
Somava-se à situação econômica a epidemia. As reportagens dos jornais: “El Eco del Beni”, “La Gaceta del Norte”, “El Comercio”, “El Censor” e “La Unión”, entre outros, transmitiam preocupantes notícias econômicas, políticas e sociais a seus leitores. Suas edições acompanhavam as ações militares da I Guerra Mundial e davam conta, por um lado, das mortes diárias, e por outro das normas de biossegurança a serem seguidas para enfrentar a epidemia. Uma vez declarada a pandemia, o semanário “El Comercio”, publicado na cidade de Riberalta (Beni-Bolívia), eixo econômico, político e social do Noroeste, especificava aquelas medidas que os habitantes deviam conhecer e cumprir. Como veremos a seguir, a semelhança com os atuais padrões de biossegurança, devido à pandemia COVID-19, não pode deixar de nos causar perplexidade.

Mas, como a população enfrentou as crises simultâneas: sanitária e econômica? Nas páginas seguintes tentaremos mostrar a urgência das políticas públicas para amenizar a crise (sustentação econômica, emissão de títulos e acordos com o Brasil). Exploraremos a posição visionária do empresariado vinculado ao negócio da borracha diante dela, que se traduziu na busca de outros produtos para exportação, entre eles a castanha do Pará ou do Brasil (Bertholletia excelsa). Do mesmo modo, como foi a resposta disciplinada da população à gripe espanhola, seguindo as instruções da Junta Municipal para contê-la, no contexto de uma cidade com condições de serviço, higiene e saneamento muito melhores que as outras da região e, atrevo-me a dizer, então melhores que as atuais.

 

A cidade de Riberalta entre 1917-1920

 

Bela orquídea das selvas do Noroeste da Bolívia [...] que passa o dia se olhando no espelho do Manutata e cortejando o Beni [...] acariciada pelo sol, mimada pela lua, cortejada pelo zéfiro, é a mais galante das cidades do Leste, Norte e Noroeste do país.[1]

 

Não podemos encontrar sobre Riberalta outra descrição, nem melhor e nem mais bela, do que a de Rogers Becerra (1984). A pequena cidade do Noroeste Amazônico da Bolívia, localizada em um planalto natural, a 30 metros acima do nível do rio (159 metros acima do nível do mar), está localizada no rio Beni em frente à sua confluência com o rio Madre de Dios, em 11° graus, 0’00” latitude sul; 66°, 4’00” de longitude a oeste do meridiano de Greenwich. A cidade dinamizava a economia de exportação regional através de um produto “não tradicional”; ou seja, não exportava minérios, que era o mais significativo nas exportações da Bolívia. Trata-se do comércio da goma elástica, sob cuja influência nela ocorreram os avanços na tecnologia da modernidade europeia em serviços e saúde.[2]

Com uma infraestrutura pequena, mas eficiente, a urbe fornecia aos seus habitantes os serviços de água, iluminação à gás, telégrafo, educação e saúde. O quadro demográfico da cidade era composto por um mosaico de várias nacionalidades: árabes, turcos, alemães, suíços, italianos, espanhóis, franceses, norte-americanos, japoneses, chineses e latino-americanos. É que a economia da borracha, fermentada nas entranhas da Bacia da Amazônia Boliviana, exerceu atração sobre comerciantes, empresários, aventureiros e outros caçadores de fortunas. Adicione-se a esse quadro os grupos humanos originários da Amazônia, que aumentavam a paisagem de etnias e de multiculturalidade, característica única do Noroeste em relação ao restante do país até meados do século XX. Hoje, o fenômeno só é comparável à dinâmica populacional da próspera capital oriental da Bolívia, a cidade de Santa Cruz de la Sierra


[1] CASANOVA, Rogers Becerra. El imperio del Caucho. Perfil del Noroeste boliviano. Trinidad (BO): Imprenta y Librería Renovación, 1984, 85.

[2] Em nota extraída da correspondência de F. Duerr constante no “Boletín de la Unión Pan Americana”, declara: “Depois de Manaus, não há lugar em toda a jornada que se compare a Riberalta. Pela sua posição (refere-se à posição geográfica) e pela (sic) grande atenção que os seus habitantes dedicam à saúde pública… ”. Extraído de “El Noroeste de Cobija”, em “El Comercio”, Ano I, Riberalta, Beni Bolívia, 18 de março de 1917, nº 40, 1 (19).

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Trabalhadores indígenas de Cachuela Esperanza[1]

 

As populações indígenas, principalmente de descendência Pano, Takana e Arawak, onde destacamos os Ese ejja, Araona, Cavineño, Pacaguara e Chácobo, imprimiram na cultura ancestral do Noroeste a hoje quase desaparecida identidade étnica ancestral amazônica. São herdeiras dos complexos civilizatórios, dos quais pouco ou muito pouco se sabe, cujo habitat se alterou durante mais de três séculos de colonização. Essas populações reforçavam e impulsionavam o trabalho de extração do “látex” das seringueiras. Instalavam-se no meio rural, seja nos espaços-territórios que definem o Noroeste, nos quase cem centros extrativistas e produtivos, nos seringais ou nas próprias malocas comunais.[2]

Os meticulosos relatórios da Honorável Junta Municipal de Riberalta, relativos aos anos 1917, 1918 e 1919, mostram-nos o panorama da vida quotidiana dos seus habitantes naquele triênio. Neles, consta a relação dos impostos gerados para a Fazenda Municipal, pagos por botequins, armazéns, casas comerciais (importadoras e exportadoras), hotéis, cassinos, restaurantes, drogarias, farmácias, clubes, alfaiatarias, cabeleireiros, fábricas (água, biscoitos, destilaria de álcool, etc.) e um Estanco de Tabaco. Tal variedade de locais de comércio e entretenimento[3] confirmam a dinâmica populacional, comercial, social e política da cidadela do Noroeste.

Ao comércio e serviços a cargo de japoneses (pelo menos 30 súditos japoneses declaram possuir serviços), somam-se os comerciantes de diferentes nacionalidades. Poderosos empresários e administradores de firmas importadoras-exportadoras, com agencias na Europa ou nos Estados Unidos da América, operavam na área urbana. Destes, os mais prestigiosos eram: a Casa Braillard, Alfredo W. Barber e Cía., R. Wichtendahl e Cía, Zeller Villinger e Cía., entre outros. A presença de subsidiárias de empresas de navegação como a Madeira Mamoré Railway Company e a Amazon River Steam Navigation Company Limited, faziam da cidade de Riberalta uma das mais cobiçadas, seja para viver no estilo e costume europeu ou para aumentar fortunas.

A cidade possuía um matadouro público destinado ao abate de gado, para consumo de carne, denominado "Camal"; um terminal fluvial ou porto, onde atracavam diariamente mais de 30 barcos a vapor, além de barcos rudimentares (canoas e balsas de tronco de madeiras); um templo religioso em construção (hoje a catedral da cidade) e um teatro (instalado no Hotel Continental), que logo se tornou o espaço do Cinema, oferecendo mais de 40 apresentações por ano (1918).

A administração pública estatal, era encabeçada pela Delegação Nacional no Território de Colônias do Noroeste. Funcionou em Riberalta oficialmente até 1915. Embora tivesse sua sede em Cobija-Bahía, atual departamento de Pando, na realidade continuava a operar em Riberalta, da mesma forma que o Vicariato Apostólico da Igreja Católica. A presença de uma Guarnição de Fronteira e de uma Polícia local, bem como de um Tribunal de Justiça, da Câmara de Freguesia e da Câmara Municipal completavam a gestão pública nacional e municipal do período. As estâncias aduaneiras, que cobravam os impostos de importação e exportação, estavam localizadas nas cidades satélites da capital provincial de Vaca Díez: Villa Bella e na cidade de Cobija (70% das receitas das exportações de borracha eram recolhida para o Tesouro Nacional).


[1] BAULER, Emil Rudolf. Photographs of Cachuela Esperança & Madeira River – 1908 – 1911. The photographs were taken by the Swiss doctor Emil Rudolf Bauler (1881-1951), who spent a few years in the Bolivian East 1908 and 1911. (Org) R. Villar, 2019.

[2] Em 1846, a população indígena no departamento de Beni e Colônias (isto é, o Noroeste) era estimada em 46.859 habitantes, representando 96,80% de um total de 48.406 habitantes (DALENCE, José María. Bosquejo estadístico de Bolivia. Chuquisaca, 1851, in GRIESHABER, Erwin P. Situations in the definition of the Indian: Comparison of the Censuses of 1900-1950, in Historia Boliviana V / I-2, Cochabamba (1985) 65. Em 1900, totalizou 13.634 habitantes; ou seja, 41,43% do total de 32.908 habitantes do Departamento e Território das Colônias. Tais números devem ser observados com muito cuidado, pois, como aponta Grieshaber (1985), os dados do Censo de 1900 foram baseados na população dos indígenas que pagavam tributo, isto é, deixou de fora os nativos que viviam ainda nas florestas (Ob. Cit., 1985: 58) Na Bolívia, a população indígena amazônica (de Colônias) não era considerada parte constitutiva da sociedade oitocentista, eram os "selvagens", canibais ou bárbaros, foi deixada de fora do Censo.

[3] Mais de 30 bares ou botequins, 15 casas comerciais, 15 lojas de varejo, 2 hotéis, 3 cassinos, 8 restaurantes, 4 pensões, 5 sorveterias (de propriedade de japoneses), 8 alfaiates, empresas de carpintaria (Arnold & Cía.) e carpinteiros particulares. Além de 2 drogarias, 4 farmácias, 10 bilhares, 3 bares, 2 clubes (entre os mais prestigiados estava o Clube Alemão) e cantinas, bem como 2 casinos. Junto com esses estabelecimentos registrava-se 8 fábricas de cigarros (também nas mãos de japoneses), de telhas e tijolos, de gelo, duas de água gasosa, biscoitos e confeitaria (propriedade de um chinês chamado Achu), 3 padarias (que produziam produtos da panificação italiana e francesa), 2 fábricas de destilação de álcool, 3 lavanderias, entre outras.

A epidemia de gripe espanhola no centro da região produtora da goma elástica na Bolívia (1917 e 1919) e suas analogias com a pandemia atual, pela professora Maria del Pilar Gamarra Téllez. - Gente de Opinião
Embarcação no rio Beni[1]

 

A única agência bancária que funcionava na cidade pertencia ao Banco da Nação Boliviana. Contudo, casas comerciais e a poderosa empresa gumífera / seringalista, a Casa Suárez, operavam como bancos, financiando atividades comerciais e empresariais por meio de ordens de pagamento, contas e notas promissórias contra bancos ingleses, como o Banco de Londres, ou outros, como o Banco do Rio da Prata, com escritórios em Manaus e Pará (BR).[2]

Os correios, a cargo do Estado, recebiam e despachavam correspondências locais, nacionais e internacionais, conectando a região com países como Inglaterra, Espanha, França, Argentina, Brasil, Peru, Chile e Estados Unidos da América do Norte. Estes países estabeleceram ligações postais com a região. A exceção foi a Alemanha que, devido ao conflito armado e as consequentes restrições feitas pelos poderes aliados, somente estabeleceu comunicações postais após o armistício de 1918. A limpeza dos rios e a presença de um estaleiro naval (a cargo de Benjamin Bowles), promoviam a atividade de navegação, a mais significativa na região, que se expandia neste período. Explica-se tal importância pela ausência de ferrovias e rodovias de longa distância, exceto uma rodovia que cobre o curto trecho de Riberalta a Guayaramerín (89 km de terra). As dificuldades de travessia de rios e riachos dificultavam o escoamento nos precários caminhos rurais do período.[3]

A necessidade de firmar acordos e transações comerciais com industrias e empresas dos países consumidores de goma elástica, que o Noroeste amazônico fornecia, tornava necessária a presença de gestões diplomáticas. Pelo menos sete legações consulares operavam na cidade no período estudado. Estabelecidas no centro de milhares e milhares de quilômetros de selva, serpenteados por inúmeros rios, as legações consulares confirmavam a importância da localização da atividade gumífera no Noroeste. Assim, havia o consulado do Reino da Espanha a cargo de seu súdito Dom Raimundo de Ávila; legação diplomática que já existia em 1912 sob a forma de um vice-consulado. Havia também um vice-consulado inglês, que em 1917 anunciou a chegada do Sr. George Lyall, o primeiro vice-cônsul nomeado pelo governo inglês, em nome de Sua Majestade George V, Rei da Grã-Bretanha e Imperador das Índias. A participação ativa desse vice-cônsul, definiria as restrições para as exportações de goma elástica para a Europa e os Estados Unidos da América do Norte, causadas pela Primeira Guerra.

Da mesma forma, havia um agente consular da República Francesa e o representante da legação diplomática da Alemanha. Com o último país, as relações com a Bolívia foram rompidas, notícia que foi conhecida em Riberalta por radiograma, de 21 de abril de 1917. Diferentemente, as repúblicas vizinhas, como o Peru e a Colômbia, credenciavam suas representações estrangeiras designando como cônsules ou vice-cônsules intelectuais e empresários da época. Por exemplo, em 1918, o advogado e jornalista Plácido Molina M. foi nomeado cônsul da Colômbia com residência na cidade de Riberalta.

A educação escolar era ministrada na “Escola Sucre” e na “Escola Bolívar”, que contava com oito professores, cujas despesas de salários e manutenção dos prédios eram custeadas pela Câmara Municipal. A demanda por ensino superior e universitário era satisfeita apenas por aqueles que possuíam meios, ou seja, a elite da sociedade do Noroeste, na Inglaterra, França ou Barbados. Já nas concessões de terras que constituíam os seringais, o ensino era promovido pelos patrões, ao qual os filhos dos seringueiros e de seus administradores tinham acesso.

A presença significativa de profissionais, entre estes ilustres advogados e intelectuais da época[4], constituía, juntamente com os médicos e o eventual poderoso empresário, os quadros políticos das candidaturas eletivas nacionais e locais. Com o pleno domínio do Partido Liberal, no poder do Executivo Nacional desde 1899, a disputa eleitoral na província estava muito acirrada. Nas eleições a serem realizadas para a constituição do Executivo Municipal para o período 1917-1921, estimou-se que a Província de Vaca Díez, com as suas duas secções provinciais (Guayaramerín e Villa Bella), poderia atingir um mínimo de 1800 votos. O pequeno número de sufragistas indica que o eleitorado era quase comparável à população estrangeira. Contribuía também para esse fenômeno o fato que adultos analfabetos e mulheres não possuíam o acesso ao voto.

Como resultado da força econômica do quinquênio 1910-1914[5], no triênio 1917-1919 as melhorias urbanas se aceleraram. Foram pavimentadas as quatro avenidas que contornavam a praça principal, "6 de agosto". A praça tinha a largura de quatro metros, e foi calçada com tijolos, unidos com cimento romano. Foi construída uma pérgula na praça principal, que posteriormente serviria para as tradicionais retretas dominicais, animadas por um grupo de músicos. Acresça a essas obras, a limpeza das ruas principais. Vários moradores e empresas comerciais apoiaram a melhoria das instalações públicas. Como esperado, a poderosa empresa gumífera / seringalista da época, a Casa Suárez Hermanos, dona de vários imóveis na cidade, pavimentou centenas de metros de calçadas, na rua principal da praça e outros 70 na praça e na rua René Moreno, dando uma nova imagem ao bairro central da cidade.

O crescimento populacional da cidade obrigou a Câmara Municipal a reconfigurar a área urbana em 1917, com base no plano traçado em 1908, bem como a realizar um novo cadastro. As instruções para a apresentação da documentação dos imóveis urbanos foram tornadas públicas em 28 de maio de 1917. A imprensa registrou que se manteve o maior raio da cidade, durante o quinquênio 1917 a 1922, na área de seis quilômetros em torno da praça central "6 de agosto".

Uma população resplandecente, da qual fazia parte a “cambacracia engalanada e rica”, como a chamou Rogers Becerra (1990)[6], que alimentava seus bolsos com libras esterlinas provenientes das exportações de goma elástica, como o látex da seringueira, sofria a perda de membros da família e amigos para a pandemia.

 

A crise sanitária e a pandemia de gripe espanhola

 

Médicos como os doutores H. Osaki (com especialização em cirurgias de emergência nas faculdades de Tóquio, Berlim e Kanazawa), Ricardo Caspery, Gustavo Gonzales, Juan T. Ascher e Federico K. Fernholz; além dos farmacêuticos Traug, Schelling, Francisco Chagas e Ignacio Coímbra, enfrentavam a doença com normas sanitárias e de quarentena. As receitas da farmacologia ortodoxa ocidental foram combinadas com a medicina natural. Os xamãs contribuíram com suas experiências, esquecidas ou impenetráveis ​​para a cultura ocidental crioula. A saúde bucal não foi negligenciada. Em 1918, foi anunciada a chegada do Dr. Jorge Jung, “... cirurgião dentista credenciado e habilidoso ...”. Mas, além dele, os serviços do Dr. Guillermo Weise (filho), outro cirurgião-dentista de renome, já estavam disponíveis.

Os óbitos, registrados estatisticamente por trimestres, incluíam os falecimentos causados por doenças consideradas endêmicas: malária, tuberculose e febre palustre. Da mesma forma, foram registrados aqueles eventos mórbidos causados ​​por pneumonia, pneumonia brônquica e até tuberculose. De um total de 84 mortes em 1917[7], a maioria foi causada por doenças endêmicas. Em 1918, no primeiro trimestre, registrou a morte de 34 pessoas, somando-se às causas anteriores, anemia e meningite. No segundo, chegaram a 28. Ainda não havia registro das mortes causadas pela gripe espanhola.

Em outubro de 1918, espalhou-se a notícia de que "... a gripe avança na Espanha e já invadiu a Argentina e o Brasil ...", causando muitas vítimas. No Rio de Janeiro, "vários médicos" morreram e até o presidente eleito, Dr. Rodríguez Alves, contraiu a doença em novembro de 1918 e dela morreu em janeiro de 1919. Diante do alerta, no país vizinho, o cônsul boliviano em Belém do Pará, Dr. Adolfo Días Romero, telegrafou para a subprefeitura da província de Vaca Díez, informando que a gripe já havia se manifestado naquela cidade e, portanto, os postos alfandegários dos municípios de Villa Bella e de Riberalta, deviam se precaver no que se refere à “... recepção de passageiros e cargas ...”.

A autoridade consular indicou que, com urgência, “... sejam constituídas comissões de saúde ...”, para a desinfecção ou adoção de quarentena[8]. A imprensa local relatou os antecedentes de pandemias, remontando às suas primeiras notícias ao ano de 412 a.C., conforme descritas pelos historiadores Hipócrates e Tito Lívio. Embora a sintomatologia da enfermidade fosse já conhecida desde 1510, foi durante o século XIX que se registraram quatro grandes surtos epidêmicos, a saber: 1830-1832, 1836-1837, 1847-1848 e o último 1899-1900. A propagação da doença é muito rápida e dura, geralmente, de 6 a 8 semanas.

De acordo com o mesmo semanário, os sintomas se manifestam com:

 

O primeiro ataque abrupto com febre e outros sintomas. A pessoa pode estar se sentindo bem e, logo em seguida, subitamente, podem surgir dores de cabeça, dores no corpo e mal-estar, sentir tontura repentina e desmaiar. Soma-se a isso a febre, congestão da garganta e do nariz, além de tosse seca. No segundo dia ocorre o agravamento da doença, vem a vontade de dormir, o doente perde o apetite. No terceiro dia [...] continua uma tosse persistente, com dores nas costas. A convalescença começa no quinto dia e, na maioria dos casos, o paciente leva uma ou duas semanas para se recuperar[9].

 

Em finais de 1918 a vacina contra a gripe espanhola foi oferecida aos donos dos seringais, bastando apenas que eles indicassem o número de doses que necessitavam[10]. Embora não haja registro na imprensa, é de se supor que a vacinação já tivesse sido efetivada nas áreas urbanas do Noroeste. Mesmo assim, as recomendações e o tratamento para a doença foram divulgados, como segue:

 

Prevenção. Está comprovada a natureza contagiosa da doença, cuja principal fonte de contágio é a secreção do aparelho respiratório [...] As crianças acometidas não devem frequentar escolas ou qualquer outro local de encontro. Qualquer tipo de festa ou reunião deve ser proibida [...] deve-se fazer com que todos aqueles contaminados entendam que seu escarro é um perigo para os outros [...] Todo doente deve dormir sozinho. Tratamento. Todos os casos devem ser considerados graves. Arrume-se na cama, cobertor quente, bolsa de água quente nos pés [...] administrar limonada quente [...] a dieta deve ser leve e de fácil digestão [...] purgante leve, como o fosfato de sódio [...] Os medicamentos têm pouco valor para esta doença. O quinino (usado contra a malária) tem sido usado na Europa, mas sem resultados favoráveis. A convalescença requer o maior cuidado, ar fresco, alimentos nutritivos e tônicos ... [11]

 

É relatado que a origem da enfermidade foi inicialmente atribuída ao bacilo de Pleiffer, outras ao pneumococo; ou ainda ao bacilo-cataralisis. A critério do autor, entretanto, o agente infeccioso "... pode ​​ser um micróbio diferente, ainda não determinado ...". Da mesma forma, menciona-se que a disseminação é rápida. Alastrou-se pela Europa, na Inglaterra, Suíça e Alemanha; enquanto na França não foi detectado. Alguns medicamentos foram sugeridos, para o conhecimento da população, dentre eles:

 

Quinino e aspirina [...] aliviam a febre e a dor. Gargarejos de água boricada. Aplicação de pomadas à base de menta e de eucalipto no nariz aceleram a desinfecção do trato respiratório. Um purgante, um calmante revulsivo, nas costas e expectorantes tradicionais contribuirão para a cura.[12]

 

A Junta Municipal de Riberalta, envidando esforços para conter a doença, encaminhou telegrama ao cônsul da Bolívia em Manaus, Dr. Roberto Téllez, ao qual solicitou informações para prevenir e combater a enfermidade. A resposta foi enviada por telégrafo em 12 de novembro de 1918, dela tendo conhecimento Riberalta no dia 21. O representante consular respondeu que na cidade de Manaus foram registradas dezesseis mortes e 10 mil doentes. Informou ainda que naquela capital, as recomendações profiláticas e curativas eram:

 

Preventivo: ter sempre a garganta e o nariz desinfetados. Desinfete as embarcações a vapor e suas cargas, especialmente a correspondência, isole os pacientes. Curativos: sudoríficos, trinta centímetros de calomelano e uma hora depois limonada magnésia, repetir até a cura completa. Evite recaídas sempre fatais.

 

Mesmo com todos os cuidados dispensados para evitar a propagação da doença no Brasil, tanto em Porto Velho quanto em Manaus, a saída do Vapor Inca de Manaus com destino a Porto Velho violou a quarentena no país vizinho e obrigou as prefeituras bolivianas a decretarem quarentena em Villa Bella e Guayaramerín. No final de 1918, o fechamento de ambos os portos impossibilitou o recebimento de correspondências, bem como a entrada de cargas e passageiros de Villa Murtinho (BR), que era a estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré a partir da qual fazia-se a comunicação fluvial com Vila Bela (BO). Era o mês de dezembro e no dia 8 do mesmo mês manifestaram-se os sintomas da pandemia sobre a saúde dos moradores e sobre o fluxo diário do comércio no Noroeste. O Conselho Municipal de Riberalta pediu ao governo que alocasse recursos financeiros para combater a pandemia.

As instruções dadas à população, como conselhos médicos e higiênicos, foram divulgadas logo a seguir. Assim, “... para a desinfecção recomendava-se usar lisol e creolina, queimar alfazema e alcatrão nos quartos, como conservantes, beber café com gotas de limão e ingerir diariamente 5 centigramas de quinino.” Além de: “... evitar frio, umidade e ventos.” Apesar das instruções e cuidados especiais à população, a Comissão de Saúde da Província de Vaca Díez instruiu a Ilustre Junta Municipal a expedir portaria, tendo em vista que se constatara a presença da influenza na província e, já era conhecido, que: “... o contágio é transmitido diretamente do paciente para outra pessoa e sua propagação advém da concentração de muitas pessoas no mesmo local.” A portaria foi publicada em 4 de janeiro de 1919 (oito artigos). Destacamos seu conteúdo, principalmente por sua semelhança com a pandemia COVID-19, conforme apontamos no início destas páginas:

 

“Artigo 1. - Até novo aviso, são proibidos todos os eventos teatrais, cinemas, concertos, danças, velórios, encontros políticos ou (sic) de qualquer outro tipo e a participação de ouvintes em (sic) missas ou (sic) festividades religiosas.

Art. 2.- Muita limpeza de garganta com antissépticos [...] clorato de potássio, alúmen, ácido bórico, permanganato de potássio [...] resorsina e linha de base (sic) [...] para uso interno Arrehenal é recomendado como conservante.

Art. 3º .- ... suspender todas as visitas ao (sic) doente acometido ou (sic) com suspeita de gripe [...] ter o paciente isolado de outras pessoas [...].

Art. 5.- Todos os utensílios utilizados por um paciente devem ser desinfetados [...] em termos de vestimenta [...] espalhando o micróbio, devem ser queimados ou (sic) desinfetados da mesma forma se o mesmo paciente for utilizá-los posteriormente.

Art. 6.- Ao disseminar o bacilo do micróbio contagioso diretamente de pessoa a pessoa, os responsáveis ​​pelos pacientes evitarão abordá-lo [...] recomendando a desinfecção dos quartos [...] da bacia (sic) de seu uso e isolamento em sala separada ...

Art. 7º - Os membros da Comissão de Saúde estão autorizados a (sic) realizar visitas domiciliares para garantir o cumprimento [...] devem ostentar o distintivo de cruz vermelha [...] sem prejuízo das que a Comissão de Polícia venha a realizar. ...

Artigo 8º - Compete à Polícia Municipal e de Segurança a execução e cumprimento da presente Portaria, aplicando-se a multa autorizada pela Lei Orgânica dos Municípios.

Proferida na Câmara Municipal de Riberalta, aos (sic) quatro dias do mês de Janeiro de 1919.[13]

 

Para o pronto atendimento aos enfermos, a Junta de Saúde decidiu viabilizar o novo pavilhão do Hospital Militar[14].

Vale ressaltar que a Junta instruiu ao seu tesoureiro (tenente-coronel Arturo Núñez del Prado) a entregar medicamentos gratuitamente aos pacientes pobres. O procedimento deveria ser realizado mediante a prévia apresentação, por parte do interessado, de um boleto emitido pelos médicos da Junta de Saúde e da Comissão de Polícia Municipal.

Aconselhamento e controle médico foram intensificados. Apesar disso, os doentes aumentavam diariamente. Entre esses, funcionários estrangeiros e muitos bolivianos[15], assim como as esposas desses poderosos comerciantes e até mesmo seus filhos. Além deles, outras pessoas das quais não há registros, senão que eram "... um grande número de criados, garçons e japoneses ...". Em todo caso, a imprensa destacou que poucos casos foram fatais. Embora a gripe estivesse aumentando em proporção, pois "... quase todos os soldados foram contaminados, incluindo o cirurgião".[16]

No final de janeiro a epidemia atingiu números extraordinários de infecções. Estimava-se que existiam mais de mil infectados e havia casas em que todos contraíram a doença, enquanto os mortos já ultrapassavam cinquenta. Em março de 1919 foram estabelecidas as primeiras estatísticas de óbitos causados pela epidemia de gripe, atingindo um total de 65 vítimas (24 menores e 41 idosos)[17]. De um total de 2.500 habitantes, estima-se que 90% contraíram a doença. Se isso aconteceu nas áreas urbanas, o mesmo deve ter acontecido nas áreas rurais. Infelizmente, não temos informações sobre os efeitos da crise epidemiológica sobre os seringueiros e indígenas do meio rural. A exceção é dada pela informação do seringal “Concepción”, propriedade de Suárez Hermanos, de cujo total de 240 habitantes morreram 18 pessoas.[18]

O apoio econômico do Estado chegou muito atrasado. Uma vez declarada a crise, informou-se que a subprefeitura recebeu a “oferta” de 5.000 bolivianos para atender à “gripe” em Riberalta e que o valor seria remetido em fevereiro. Porém, naquele mês foi divulgado o relatório da Junta de Saúde (dr. Dagoberto Antelo, dr. Jesús Lijerón, tenente-coronel Arturo Núñez del Prado e dr. Ricardo Caspary (médico), com notícias animadoras. O próprio dr. Caspary relatou que até aquele momento a doença havia contagiado várias pessoas de forma bastante benigna. Ainda, que os pacientes estavam em completa recuperação. Conclui-se então que o apoio do Estado foi recebido apenas após a morte de mais de 60 pessoas e quando a onda de doenças praticamente havia cessado.

A impressão que causou a presença do Estado no cuidado de seus cidadãos foi objeto de muitas censuras. Restou perceptível que a eficácia da administração pública federal no Território de Colônias do Noroeste era apenas fiscal. Atribuir à cidade de Riberalta a soma de 5.000 bolivianos para enfrentar a crise sanitária foi grotesco. Apenas a alfândega de Villa Bella, anexada como segundo trecho à província de Vaca Díez, informou as arrecadações da economia gumífera que se formava no Noroeste, da qual Riberalta era seu eixo articulador, somas que oscilavam entre quinhentos mil e um milhão de bolivianos, chegando a um milhão e meio em 1909[19]. De resto, as críticas a este respeito são abundantes.

Ao relacionar a pandemia COVID-19 à gripe espanhola do século XX, cabe a seguinte pergunta: as autoridades bolivianas do século XXI estão a seguir o caminho dos seus antecessores? Uma análise contemporânea desta última pandemia nos dará uma imagem precisa da situação no século XXI.

 

Crise econômica no Noroeste, soluções de curto prazo

 

Dois componentes socioeconômicos são adicionados à crise de saúde no Noroeste Boliviano na segunda década do século XX. Por um lado, a lei de terras de 1915, que tratava da consolidação das posses gumíferas, cuja validade terminaria em 31 de dezembro de 1917. Segundo a Câmara de Comércio, a caducidade da referida lei perturbaria a "... moribunda indústria regional, ameaçando [...] as cabeças dos industriais que enfrentam lutas desesperadas com a crise e as desastrosas consequências da guerra". Tal perspectiva motivou a apresentação de um Memorial ao Ministério das Colônias[20]. Por outro lado, as restrições do vice-consulado britânico atingiram suas exportações e importações, notícia que foi divulgada em Riberalta em novembro de 1917, pela mesma legação diplomática, através do envio de uma circular aos exportadores indicando que:

 

 [...] Pela Lei do Governo Britânico, denominada “The Trading with the enemy” (Extension of Powers, Act, 1915), é necessário que a exportação de borracha para o exterior tenha um “Certificate of Interest” declarando que nenhuma pessoa inimiga ou com quem as transações comerciais são proibidas, de acordo com a “Statutory List” (Lista Negra), tem qualquer interesse na borracha que é exportada [...] este decreto se refere a todas as exportações de borracha boliviana [...] direto para o Grã-Bretanha e as colônias inglesas […][21].

Adicionalmente a Lei do Governo dos Estados Unidos de 17 de agosto de 1917, proibia as transações comerciais com casas alemãs e seus intermediários, sob pena de confiscar a carga no Canal do Panamá. Proibia ainda as relações comerciais com a Alemanha ou seus aliados. A Lei foi publicada, na íntegra, na imprensa local de Riberalta em 22 de janeiro de 1918[22].

A pressão dessas determinações deve ter sido tanta que a imprensa de Riberalta divulgou um comentário intitulado: “A lista negra e procedimentos de investigação”. Nele, mencionou as consequências do envio de agentes consulares e diplomáticos da Grã-Bretanha à Bolívia. Tinham como missão “investigar” o desenvolvimento dos vários negócios e seguir os passos dos comerciantes. A ação foi vista não apenas como uma medida “... não consultada e temerária [...] ofensiva à dignidade nacional”. Acarretou também essa medida a incerteza, mal-estar e danos graves, minando as bases da estabilidade do comércio[23]. As reclamações e críticas continuaram. Assim, indica-se que os exportadores bolivianos não tinham liberdade para despachar suas cargas, pois as restrições foram o pretexto para rejeitar os embarques. Os mesmos industriais afirmavam que um "monopólio odioso" foi estabelecido em favor de firmas ou súditos britânicos[24].

As particularidades do mercado mundial de goma elástica, bem como os preços alcançados pelo produto, foram conhecidas em Riberalta por meio da divulgação de duas reportagens. A primeira, intitulada "Transcrito da brochura publicada pelo Swiss Bank Corporation, sobre o movimento financeiro e comercial de 1917". A outra, transcreve o que foi tratado na "Assembleia Geral Ordinária da Associação de Plantadores de Goma” (Incorporated), realizada na sexta-feira, 24 maio de 1918 no Cannon-Street Hotel, sob a presidência de Sir Edward Gosling.[25]

Até 1917-1918, a crise do mercado de goma elástica não ocorria exclusivamente por causa dos preços, embora também este componente a impactasse. Ocorria, primariamente, por causa dos cortes nos volumes comprados tanto pela Grã-Bretanha quanto pelos Estados Unidos da América. Apesar das dificuldades da guerra, o mercado apresentou certa estabilidade de preços. O preço da seringa e do caucho no mercado internacional era conhecido rapidamente por via telegráfica. Em 1917, o máximo do "Standart Crepe" foi de 3 xelins e 5 pences / libra (433 gramas), alcançado em fevereiro de 1917, e o mínimo de 2 xelins e 2 pences durante a primeira semana de dezembro. O preço médio do ano foi apurado em 2 dois xelins e 9 pences, 1 xelin e 2 pences, em relação a 1916, cujo preço médio foi de 2 xelins e 10 pences, 1 xelin e 4 pences; ou seja, o primeiro foi apenas ligeiramente inferior ao de 1917.[26]

Assim, a crise da goma elástica na Bacia Amazônica se deve ao aumento da oferta ao mercado consumidor (Grã-Bretanha, França e Estados Unidos da América) do produto das plantações e a consequente queda no consumo da borracha silvestre.

 

Produção de Mundial de goma elástica - 1909-1917

Ano

Origem da goma elástica

Restante*

Total

Agrícola

Silvestre

1909

3.600

42.000

24.000

69.600

1915

107.867

37.220

13.615

158.702

1917

216.000

37.000

13.000

266.000

*Computada a goma elástica de origem boliviana, colombiana, peruana e até mesmo algumas áreas da África.

Fonte: Brochura publicada pela Swiss Bank Corporation (1917) em “El Comercio”, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 30 de novembro de 1918, n° 105, página 2. (246)

 

O principal consumidor em 1917, os Estados Unidos da América do Norte, absorvia 61% da produção mundial, correspondente a 180 mil toneladas. Este consumo era motivado pelo boom econômico e pelo desenvolvimento da indústria automobilística naquele país. A Inglaterra adquiria apenas 10% da produção mundial. Devido à guerra, a crise no transporte obrigou aos produtores restringir sua colheita a 80% do que foi coletado em 1917 até 1918. Calculou-se então que 310 mil toneladas poderiam ser colhidas. Soma-se a isso a redução do consumo da matéria prima nos Estados Unidos da América, correspondente a 25 mil toneladas por trimestre, ou 100 mil toneladas anuais. A crise se estendeu aos produtores, principalmente nas colônias inglesas. No Extremo Oriente, os investimentos de várias empresas inglesas totalizaram 75 milhões de libras esterlinas e mesmo antes da crise pagavam dividendos de 20% ao ano[27].

O que estava acontecendo então em Riberalta? Naquela cidade, a crise econômica mundial era conhecida com precisão, em razão de que as notícias veiculadas pela imprensa provinham de fontes sérias e confiáveis.

Industriais do Noroeste reclamavam das restrições, agora porque os embarques de goma elástica só seriam feitos pelo Brasil. Eles denunciavam que os efeitos da estagnação foram tão perceptíveis, que as condições econômicas na região pioraram de forma alarmante e, se continuassem a piorar, os negócios seriam paralisados. Diante da situação, a Câmara de Comércio de Riberalta pediu ao governo a quantia mensal de 100 mil bolivianos para que o Estado adquirisse a goma elástica, a fim de proteger a indústria "agonizante". Em seguida, estimava que seriam exigidos 500 mil bolivianos do Estado para comprar a produção dos rios Beni e Abunã.[28]

Também propôs a emissão de títulos do governo, no valor de 500 mil bolivianos, destinados ao pagamento das dívidas da Delegação Nacional, contraídas nas administrações de 1913 e 1914. As dívidas estavam relacionadas aos fornecimentos de bens por parte do comércio e de particulares àquela delegação. Propôs como garantia dos títulos emitidos a receita nacional, especialmente das alfândegas de Villa Bella, Manoa e Cobija.[29]

Já em 1918, exportadores bolivianos pediam ao governo que firmasse acordos com o Governo Federal do Brasil, para viabilizar os embarques de goma elástica da Bolívia. De igual maneira, solicitavam aos Estados Unidos da América do Norte alvarás de exportação da produção total anual. Esta atingia o total de 2.500 toneladas, assinaladas nos despachos aduaneiros de Guayaramerín, Villa Bella, Cobija e Manoa, já que o mercado nova-iorquino era exclusivo para borracha da América do Sul. Acrescentavam que: "... não estamos resignados a testemunhar o desamparo da classe industrial a quem o país e os cofres nacionais tanto devem.” Assinalavam ainda que, ao contrário da Bolívia, no Brasil: "... o Banco do Brasil votou três milhões de libras esterlinas, antecipando até 50% das vendas externas ...", uma política "protetora" que fez com que a goma elástica boliviana do Acre e do Abunã fugissem da fiscalização e se apresentassem como brasileiras”.[30] Em outras palavras, os industriais bolivianos foram forçados a contrabandear sua produção. A imprensa justificava a ação, afirmando ser seu motivo o fato de o governo brasileiro emitir certificados de exportação.[31]

Apesar disso, já em março de 1919 se sabia que a borracha nos mercados estrangeiros custava 1 xelim e 10 pences; "Preço nunca visto tão aviltado".[32] O governo boliviano foi, então, forçado a isentar os industriais da cobrança de taxas de exportação.

Os seringalistas do Noroeste logo encontraram outro produto que compensasse a perda do mercado da goma elástica, a castanha (castanha do Pará ou castanha do Brasil, Bertholletia excelsa). Desde 1917 amostras do produto, ainda com casca, já eram exportadas. A pioneira Casa Suárez havia mobilizado suas conexões comerciais com a Europa e os Estados Unidos, enviando amostras da castanha para divulgá-la. A mesma empresa recomendou a outros industriais a exploração da castanha, como um substituto momentâneo da goma elástica. Com o mesmo objetivo, uma matéria na imprensa apontou a "... necessidade de desenvolver a indústria da castanha...", informando que na Amazônia já era uma indústria de extrema importância. Assim, sua exploração foi vista como um “alívio para a crise”.[33]

Nesse contexto, novamente os ingleses se envolveram na produção nascente. Em fevereiro de 1919, o vice-cônsul britânico em Riberalta publicou um texto contendo informações sobre o estado da produção no departamento do Beni, (tradução de um artigo publicado em “The board of trade journal, England” datado de 18 de julho, 1818). Os exportadores viram possibilidades de um novo negócio com os comerciantes ingleses. Em 1919, a Casa Suárez informava que a castanha estava sendo recolhida em seu estabelecimento “Yata” e enviaria cerca de 20 mil kg para a Europa ou para os Estados Unidos.[34] Os seringalistas se mobilizaram, entrando gradativamente no negócio. Assim, de 1920 a 1930, o país entrou no mercado mundial dessa castanha, abundante nas florestas tropicais da Amazônia, especialmente na Bolívia.

Atualmente “... a castanha ocupa o segundo lugar em valor de exportação agroindustrial, atrás da soja”. Em 2001, o valor total das exportações atingiu 27 milhões de dólares e em 2016 ultrapassou 119 milhões.[35] Desde aquele período, a Bolívia ocupa o primeiro lugar nas exportações de castanha da Amazônia. Assim como acontecia com a goma elástica até a década de 1920, desde 2010 a Grã-Bretanha e os Estados Unidos são os principais compradores do produto (33% e 28% respectivamente).

Entre 1917 e 1920 foram tomadas medidas de curto prazo, para amenizar a crise econômica local e regional. Á castanha foram somados outros produtos abundantes na floresta amazônica, como salsaparrilha, balata, goma elástica, entre outros. Chamando de “... a ressurreição de uma indústria... ”, houve mesmo quem pensasse na reativação da exploração da quina para aliviar a crise.

No entanto, os efeitos da Guerra Mundial, aliados à crise sanitária devido à proliferação de pacientes infectados com a "gripe espanhola", foram sentidos com rigor. No final de 1918, declarada a pandemia, os artigos de primeira necessidade começaram a escassear, entre eles alimentos como farinha de trigo e açúcar, a escassez estava presente tanto em Manaus (BR), como em Villa Bella e em Riberalta (BO), sem exceção.

 

RIBERALTA, AMAZÔNIA-MOJOS BENI

DICIEMBRE DE 2020

 


[1] BAULER, Emil Rudolf. Op. cit.

[2] TÉLLEZ, María del Pilar Gamarra. Amazonía Norte de Bolivia Economía Gomera 1870-1940. Las bases económicas de un poder regional. La Casa Suárez. La Paz: Colegio Nacional de Historiadores de Bolivia, Producciones CIMA Editores, 2007, 391.

[3] No período, foram renovadas e alargadas as estradas Ixiamas-Heath (225 km), estendendo-se de Heath à Flórida (40 km), além das de San Antonio del Beni a Carmen del Madre de Dios (153 km, com 20 pontes, Riberalta - Caracoles (21 km, 9 pontes) Caracoles-Fortín Pacahuaras (54 ½ km, 17 pontes). El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 25 de novembro de 1918, n° 184, 3 (243).

[4] Entre estes encontram-se: Feliciano Antelo (Presidente da Junta Municipal, que faleceu precisamente devido ao ataque de gripe), Abelardo Zabala, Plácido Molina M. (Editor do semanário “El Comercio”), Ángel Velarde, Napoleón Rivero, Julio Salinas M., Medardo Chávez S. (residente em Cobija) e Gregorio Balcázar.

[5] O boom das exportações de goma elástica na Bolívia ocorreu entre 1890-1910, durante o primeiro ciclo de exportação dessa matéria-prima, foram comercializadas mais de 5.000 toneladas por ano. Entre 1906 e 1910, as exportações alfandegárias localizadas no Norte da Amazônia: Villa Bella e Cobija (Bahia), representaram 70% do total nacional com 8.900 toneladas (TÉLLEZ, María del Pilar Gamarra. El Desarrollo Autónomo de la Amazonia Boliviana. Procesos socioeconómicos en la Frontera Pionera (1860-2002). La Paz: CEPAAA / La Pesada Ediciones, 2012, 309-311.

[6] CASANOVAS, Rogers Becerra, Cambacria endomingada y Rica, manuscrito, inédito, 1990.

[7] Em 1917, a idade dos recém-nascidos variava de 2 a 3 meses. Já entre os adultos os falecidos contavam com 20, 35 e 50 anos. A média de idade variou entre 30 e 60 anos.

[8] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 31 de outubro de 1918, n° 102, 3 (235).

[9] El Comercio, Ano, III Riberalta, Beni-Bolívia, 25 de novembro de 1918, n° 104, 2 (242).

[10] El Comercio, Año III, Riberalta, Beni-Bolivia, 31 de outubro de 1918, n°.102, pág. 4, (236).

[11] (Dr. William Emerich), El Comercio, Ano III Riberalta, Beni-Bolívia, 25 de novembro de 1918, n° 104, 2, (242), o negrito é nosso).

[12] El Comercio, Ano III Riberalta, Beni-Bolívia, 25 de novembro de 1918, n° 104, 4, (244).

[13] Portaria. Honorável Junta Municipal da 1ª Seção da Província de Vaca Díez, in: El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 5 de janeiro de 1919, Nº 110, 3 (271).

[14] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 31 de dezembro de 1918, n° 109, 3 (267)

[15] Empregados de casas comerciais como: Francisco Ritz, Federico Hecker (Casa Braillard), Alberto Rauch (Casa Suárez); além de Germán Bakhausen, G. Herzig e os bolivianos Abelardo Zabala, Rodolfo Costas, Ignacio Paz, Adolfo Melgar, Manuel Alpire, Wenceslao Mariaca, Grimaldo Zambrana.

[16] Consta que o médico J. Ostria R. está doente, assim como o administrador do El Comercio Weekly e sua família, razão pela qual sua edição provavelmente será suspensa enquanto se mantiver a intensidade da epidemia. Radiograma, 01/07/1919, transcrito em El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 12 de janeiro de 1919, n° 111, 2 (274)

[17] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 2 de março de 1919, n° 117, 4 (315).

[18] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 11 de abril de 1919, n° 123, 4 (350). A imprensa pede que as informações dos demais estabelecimentos rurais produtores de borracha lhe sejam encaminhadas. O seringal Concepción, localizado no rio Beni, é a concessão gomeira que meu avô, Juan Gamarra Ibáñez, comprou da Casa Súarez, começando como um "inquilino" dela justamente no período 1920-1925, pós-pandemia.

[19] María del Pilar Gamarra Téllez, op. cit, (2007) 161.

[20] El Comercio, Ano II, Riberalta, Beni-Bolívia, 27 de julho de 1917, n° 56, 2 (76).

[21] ACS / Circular de 27 de julho de 1917, in María del Pilar Gamarra Téllez… (2012) 326.

[22] El Comercio, Ano II, Riberalta, Beni-Bolívia, 22 de janeiro de 1918, n° 79, 3 (141).

[23] El Comercio, Ano II, Riberalta, Beni-Bolívia, 27 de novembro de 1917, n° 72, 1 (111).

[24] El Comercio, Ano II, Riberalta, Beni-Bolívia, 16 de dezembro de 1917, n° 75, 4 (126).

[25] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 30 de novembro de 1918, n° 105, 1-3 (245-247).

[26] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 30 de novembro de 1918, n° 105, 1 (245).

[27] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 25 de novembro de 1918, n° 104, 1 (241).

[28] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 23 de agosto de 1918, n° 86, 1 (205); 3 de setembro de 1918, n° 97, 3 (211); 19 de setembro de 1918, n° 98, 3 (215).

[29] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 5 de outubro de 1918, n° 99, 1 (221).

[30] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 13 de outubro de 1918, n° 100, 1 (225).

[31] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 24 de outubro de 1918, n° 101, 1-2 (229-230).

[32] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 2 de março de 1919, n° 117, 4 (319).

[33] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 18 de fevereiro de 1919 n° 110, 2 (301).

[34] El Comercio, Ano III, Riberalta, Beni-Bolívia, 2 de março de 1919 n° 117, pág. 2 (313).

[35] Gregorio Quiroz Claros e Vincent Vos, com o apoio de Luis Moreno Arza e Edwin Cárdenas Benítez. Castaña, condiciones laborales y medio ambiente. Propuesta de Incidencia Pública desde el Sector Zafrero de la Castaña de la Amazonía Boliviana. Santa Cruz de la Sierra: CIPCA, 2017, 36.





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