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A Terceira Margem – Parte LXVI - Real Forte do Príncipe da Beira - III
No dia de 20.01.1752, preocupado com as Aldeias espanholas na margem Oriental do Guaporé...
Publicado Sábado, 17 de Outubro de 2020, às 09:04 | Fonte Hiram Reis e Silva (*) 0
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Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XXXV

Real Forte do Príncipe da Beira - III

Francisco Xavier Mendonça de Furtado

No dia de 20.01.1752, preocupado com as Aldeias espanholas na margem Oriental do Guaporé, Francisco Xavier Mendonça Furtado, Governador do Pará, indica, em Carta, ao Sr. Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Diogo de Mendonça Corte Real, os locais onde deveriam ser construídas as três Fortificações:

Pelo que respeita às povoações que se devem fazer naquele caminho, todos concordam em que se deve fazer uma junto à primeira Cachoeira do Rio da Madeira, aonde os passageiros achem mantimentos, e umas que chamam Ubás para passarem para cima, e finalmente para lhe facilitar todo o meio de fazerem esta larga jornada. A segunda no Rio Aporé ([1]), meia légua acima da Aldeia de São Simão e esta me parece que devia ser logo, e se lhe devia fazer algum gênero de Fortificação.

A terceira no mesmo Rio, ou defronte ou no fim da Ilha Comprida, porque me consta que as terras são melhores, não só para cultura, mas por ora as mais próprias para segurarmos as nossas Conquistas e fazermos conter aos Castelhanos, para que não se adiantem, sem que eles, nem aparentemente, tenham razão justa de queixa. (REIS, 1948)

No dia 09.11.1752, Mendonça de Furtado enviou ao seu irmão Sebastião José de Carvalho e Mello (Marquês de Pombal), uma Carta destacando a preocu­pação com as tropas da Comissão de Demarcação:

A tropa que subir pelo Madeira e Guaporé deve ser poderosa, porque os Padres têm três Aldeias que devem ceder-nos, e a de Santa Rosa é considerável, pois me afirmam que tem muita gente de armas, e chegam até o ponto de me dizerem que passam de três mil arcos.

Para todo o sucedido, me parecia que, para dar calor às tropas, deveriam ir também naquele corpo de gente duas pecinhas ([2]) do novo intento, para rebater qualquer desobediência ou insulto que estes Padres queiram fazer; e se apresentar ocasião, creio que as duas peças farão um excelente efeito, e que farão horror a estes bárbaros, que nenhum parará diante delas. (RIHGB, 1962)

A Guarda de Santa Rosa Velha

Mendonça Furtado determina a Rolim de Moura que tão logo os Missionários desocupem as Missões jesuíticas de Santa Rosa, São Miguel e São Simão na margem Oriental do Rio Guaporé, estas sejam ocupadas pelos portugueses, evitando que os espanhóis voltem a ocupá-las.

O Capitão-General Antônio Rolim de Moura Tavares desce, então, o Rio Guaporé e desaloja a missão espanhola de Santa Rosa ali instalando uma Fortificação a que deu o nome de Guarda de Santa Rosa, em 1753.

Com facilidade, D. Rolim faz com que a Missão espanhola deixe Santa Rosa. Os Jesuítas, a serviço da Coroa de Espanha, passam para a margem esquerda do Rio Guaporé, e aí fundam uma nova Missão, a cerca de 100 km acima da confluência desse curso d’água com o Rio Mamoré, e a cerca de uma hora, Rio abaixo, da antiga Missão de Santa Rosa. Assim, pois, passaram a existir duas Santas Rosas:

1°  Santa Rosa Nova, missão na margem esquerda do Rio Guaporé;

2°  Santa Rosa Velha, na margem direita, simples local abandonado por aquela Missão espanhola.

Em Santa Rosa Velha, D. Antônio Rolim de Moura Tavares, para assegurar a sua posse, estabeleceu um aldeamento de índios, entrincheirando o local com uma paliçada. A essa Fortificação improvisada, D. Antônio Rolim deu o nome de “Guarda de Santa Rosa Velha”. (FERREIRA, 1961)

Em Carta endereçada a Mendonça Furtado, datada de 14.02.1755, Rolim de Moura informa que, na Missão de Santa Rosa, haviam arrancado as portas para serem aproveitadas na nova Missão homônima do lado Ocidental do Guaporé e que, em São Miguel, as casas dos índios tinham sido queimadas, contrariando o acordado no Tratado de Madri. Para Rolim de Moura, tal ação tinha o:

pretexto de lhe evitar tornarem para eles. Como eles ainda não tinham obrigação de largarem as terras, e o fizeram sem isso o que não é pequeno benefício, não quis questionar este ponto por lhe não embaraçar a saída, mas sempre faço a Vossa Excelência ciente disto para que use desta notícia, como lhe parecer útil.

O historiador Robert Southey faz o seguinte comentário a respeito da retirada dos Padres espanhóis das Missões localizadas em território brasileiro:

A dia e meio de jornada abaixo deste ponto, erguia-se a redução espanhola de São Miguel, e a meio caminho entre esta missão e a junção do Guaporé com o Mamoré [a três dias de distância de cada lado], via-se também sobre a margem direita a redução de Santa Rosa. Tendo o Tratado de Limites declarado que fosse este Rio a linha divisória, deviam os estabelecimentos sobre a margem direita ser entregues tais quais se achavam, podendo os moradores retirar-se e perder o que era seu, ou deixar-se ficar, à sua livre escolha, prestando preito à Coroa de Portugal. Nesta estipulação nem dureza nem injustiça havia.

Eram tão recentes os aldeamentos que os abandonando não perdiam grande coisa os moradores, nem os índios votavam, como os Guaranis, ódio hereditário aos portugueses, sendo-lhes, portanto, indiferente que os amansasse e civilizasse um ou outro povo.

Não entenderam, porém, os Jesuítas dever deixar a escolha aos seus discípulos, e com culpável infração do Tratado, obrigou o Reitor de São Miguel, o P. Francisco Traiva, o seu rebanho a emigrar, queimando o lugar que abandonava, e outro tanto fez em Santa Rosa o Padre Nicolas de Medinila.

Assim tendia o Tratado mais para agravar do que para sanar a má vontade que sobre esta fronteira se tinham as duas nações. (SOUTHEY)

Destacamento de Pedras Negras

D. Antônio Rolim, em resposta à incursão promovida pelo Padre Jesuíta espanhol Raimundo Laines, com objetivo de buscar nativos e colher cacau, resolve estabelecer um Posto Militar em Pedras Negras, 200 km a montante de Santa Rosa, e do Rio São Simão, militarizando o Rio Guaporé, a fim de neutralizar as ações dos espanhóis e impedir o estabelecimento deles em território português.

Azambuja mandou intimar o Reitor de S. Simão, Frei Raimundo Laines, que mais não tornasse a violar assim a fronteira portuguesa e, para dar mais peso a esta proibição, postou uma força pequena no Sítio, desde então chamado Destacamento das Pedras, ficando este lugar a umas seis horas de viagem acima da Boca do Rio, sobre que estava S. Simão.

Reputando nova invasão esta medida, escreveram os Jesuítas ao Governador que retirasse a sua gente do que afirmavam ser território espanhol. Receando não fossem os Padres tentar à força o que ele por bem não estava disposto a conceder-lhes, embarcou Azambuja em Vila Bela com cerca de quarenta homens a reconhecer em pessoa o País e dar as providências que lhe parecessem necessárias para garantir os direitos de Portugal. (SOUTHEY)

Rolim de Moura destacou para comandar o Destacamento de Pedras Negras o Cabo de Esquadra de Dragões Marcelino Rodrigues Camponês, 7 soldados dragões, 4 pedestres e cativos remeiros-carregadores, equipou 2 canoas de guerra, armadas com 2 pequenas peças de artilharia, bacamartes e farta munição.

As medidas defensivas adotadas contiveram, momentaneamente, as investidas dos castelhanos. Rolim de Moura, em Carta datada de 02.07.1758, endereçada ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, informava que os Padres espanhóis, ultimamente, estavam respeitando as fronteiras lusas:

Nas últimas ([3]) que escrevi a Vossa Excelência, lhe dizia como os Padres espanhóis não haviam passado mais a nossa banda, mas havia protestado não passar; o que tem observado à risca; [...]

Rolim de Moura, considerando que os espanhóis, aparentemente, estavam respeitando os limites acordados pelo Tratado de Madri, suprimiu o Destacamento das Pedras Negras. O Dr. João Severiano da Fonseca relata na “Viagem ao Redor do Brasil, 1875 – 1878”, Volume 2, sua passagem pelo Destacamento de Pedras Negras, nos idos de 27.09.1877. (Continua...)

 

 





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