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1964 em Rondônia (3) - Quando 1964 chegou na terra de Rondon
Naqueles período de 1964, estavam começando a chegar ônibus “de linha”, saídos de Cuiabá (MT)
Publicado Segunda-Feira, 1 de Junho de 2020, às 08:59 | Fonte Lucio Albuquerque 0

 
 

Naqueles período de 1964, estavam começando a chegar ônibus “de linha”, saídos de Cuiabá (MT) enfrentando a rodovia BR-29, numa viagem que poderia durar três semanas, e o ponto de parada era um comércio na Avenida Sete de Setembro, entre a Joaquim Nabuco e Tenreiro Aranha. A chegada ou a saída era sempre um acontecimento. As pessoas iam ver para depois comentar. No interior começavam a chegar os “ônibus de turismo” uma fachada para conseguir manter as linhas saindo, especialmente do norte do Paraná com destino, especialmente, a Vila Rondônia.

“O ônibus só tinha hora e dia para sair, mas não tinha para chegar. Às vezes o telegrafista de um das estações instaladas pelo Marechal Rondon avisava que o carro tinha passado lá tal dia e tal hora” lembrou o jornalista João Tavares, em muitas conversas contando como eram “aqueles tempos”, e a chegada ou a partida eram celebradas com muitas  buzinas do veículo, sendo que na chegada, lembrou o gráfico Zé Paca, “as mulheres se arrumavam mais para ver os que desciam do ônibus, um espetáculo complicado, porque o pessoal vinha sujo, muitos cheios de lama de tanto ajudar a desatolar o veículo”.

O governador era Abelardo Mascarenhas Mafra, tenente-coronel paraquedista, que assumira pela segunda vez em janeiro daquele ano (em 1961 ele governara por 7 meses)  Em artigo publicado no site do governo do Estado, o jornalista Montezuma Cruz relatou que nessa segunda passagem Mafra conseguiu ainda realizar algumas obras importantes, como formar uma companhia mista de desenvolvimento constituída por garimpeiros de cassiterita, empresas privadas e órgãos governamentais”, mas o projeto foi vetado pelo Conselho de Segurança Nacional. Mafra foi exonerado e depois preso.

Um dos grandes acontecimentos para os jovens era quando uma delegação estudantil de Porto Velho e ia jogar, participar de reuniões, e bailes, em Guajará-Mirim, e vice-versa. O fato era noticiado pelos jornais O Guaporé e Alto Madeira, sempre com o  destaque para “o nosso correspondente”, enquanto em Guajará a cobertura local era do semanário “Imparcial”, com “cobertura total da nossa embaixada”, como informou na década de 1960 uma edição do semanário.

Ainda sem estrada rodoviária, as viagens das delegações eram nos trens da Madeira-Mamoré. Os que saíam de Porto Velho partiam quando o sol estava raiando, faziam o pernoite em Abunã (200 KM) e só no dia seguinte chegavam a Guajará. A volta era o mesmo percurso. O jornalista Rochilmer Rocha contava que quando havia um baile numa das vilas próximas a Porto Velho, era comum os jovens alugar uma litorina e seguir pelos trilhos para a festa.  

Muitos jovens, em idade militar, iam servir o Exército no contingente de Guajará-Mirim, e um dos que gostavam de contar essas histórias era o goleiro Inácio, dizendo que o grande temor para quem ia para lá era dar de cara com um onça, quando conseguiam “meter um paisano” e participar de algum baile na cidade, ou serem atacados por índios.

Longe de tudo, mesmo assim o futebol era a atração maior, e os clubes com mais torcedores eram os cariocas. Às quartas à noite e domingo à tarde, a pedida, para quem não ia ao estádio assistir aos jogos do campeonato local, era ir em busca de algum amigo dono de um dos poucos aparelhos de rádio para ouvir, numa transmissão onde muitas vezes se ouvia mais chiado que as vozes dos narradores, e que às vezes um grito de gol podia enganar quem estava ouvindo. Os rádios eram movidos a pilha e havia necessidade de um antena bem alta para melhorar a qualidade do som. A antena era um fio esticado entre a ponta de uma vara, aí de uns seis a  oito metros de uma a outra, e daí em outro fio para o parelho receptor. 

(Um caso para ilustrar foi na final do mundial da Suécia. Contava Esron Menezes que ele e outros foram ouvir o jogo num local e mal começou, ouviram grito de gol. Soltaram fogos, deram gritos de “campeão” e a turma entornou mais algumas. Até que chegou um retardatário e perguntou se eles estavam torcendo “pelo inimigo”. Só Assim souberam que o gol fora da Suécia. “Mas no final fizemos a festa”, lembrava o jornalista Euro Tourinho, um dos que comemoraram o gol da Suécia).

Quando 1964 chegou havia sindicatos atuantes e a União dos Estudantes, que realizava concursos de rainha, mandava delegações para participar de congressos em outras cidades, mantinha um jornal “devezemquandário”. Naquele ano de 1964, bissexto, o presidente da entidade era o estudante João Lobo que em entrevista que me concedeu para o projeto Testemunha da História lembrou ter ido com uma delegação ao Comício das Reformas de 13 de março de 1964, e voltado rápido para articular as manifestações estudantis no Território.

No Colégio Carmela Dutra, um fato interessante: muitos dos professores eram bancários ou militares da 3ª Cia. Lógico que eles mantinham um relacionamento formal, mas politicamente eram inimigos, enquanto a diretora, a professora Marise Castiel tentava contornar para evitar que essa divisão se refletisse de forma negativa no processo educacional, lembrou o professor e historiador Abnael Machado de Lima, membro fundador da ACLER.

Havia uma ebulição no ar naquele 30 de março, porque as notícias, que chegavam via Rádio Nacional, davam conta de que algo estava acontecendo num lugar chamado Rio de Janeiro, tão longe que muitos nem imaginavam como fosse. De qualquer forma os clíperes, os poucos bares e os prostíbulos funcionaram normalmente. Afinal de contas o mês de abril estava “bem ali” e a turma já se preparava para ouvir as estórias de conhecidos contadores de causos, especialmente os que em abril vinham dos seringais com mais de estórias de cobras, onças e índios. 

Quando a cidade adormeceu no dia 30 de março, uma segunda-feira, ninguém esperava que o dia seguinte, uma terça-feira, seria o divisor das águas. Nunca mais seria a mesma coisa. 







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