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COVID-19
COVID-19. OS MAIORES DE 65 ESTÃO A DEIXAR OS FILHOS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
“Que sera, sera”, como cantava a Doris Day, dizia-me um senhor de 84 anos, enquanto lia as últimas sobre a covid-19, no jornal, à mesa do café.
Publicado Quinta-Feira, 26 de Março de 2020, às 15:00 | Fonte Life Dn 0

 
 

“Que sera, sera”, como cantava a Doris Day, dizia-me um senhor de 84 anos, enquanto lia as últimas sobre a covid-19, no jornal, à mesa do café. Os mais velhos são os que mais têm resistido ao isolamento voluntário e os que mais desvalorizam o vírus que todos os dados apontam ser mais mortal na faixa etária acima dos 60. E isso está a levar a uma inversão de papéis, com filhos angustiados porque os pais acham que não há problema nenhum em ir só um bocadinho ao café ou ao pão ou jogar uma partida de cartas.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de i-Stock

“Não te preocupes, filha, eu tenho as vacinas todas da gripe”. “Mas não há vacina para este vírus, pai, essas vacinas não o protegem”. “Está bem, mas não te preocupes, que eu lavo as mãos, sempre lavei. E tenho cuidado, não entres em histeria, estás a ficar igual à tua mãe”. “Ó filha, eu passei pela gripe asiática e estive na guerra, a beber águas paradas, do chão”. “Sim, pai, mas nessa altura o pai tinha vinte anos. Agora tem 73 e problemas respiratórios”. “Filha, vai reler o Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. A sério. Faz-me lá esse favor”.

Têm sido assim os telefonemas diários, bidiários, tridiários, sei lá, entre mim e o meu pai, que finalmente ontem já reconhecia a importância de ficar em casa, “por causa da questão da contenção, para diluir o contágio no tempo e garantir a capacidade dos hospitais de dar uma resposta adequada”. “Mas filha, aquele homem que morreu tinha 80 anos e um cancro, não entres em paranoia”.

Como eu, muitos filhos por esse país fora, têm-se debatido com a teimosia dos pais em não ficarem confinados a casa em tempo de pandemia e de covid-19. Afinal, eles são a geração que lutou pela liberdade, que vibrou com o maio de 68, em França, e o seu slogan “proibido proibir”, a quem prometeram que se se mantivessem ativos e autónomos viviam bem até aos cem e para quem a velhice é um estado de espírito, a que se recusam, e bem, a ceder. Além disso, são nossos pais e mães. Eles é que mandam em nós, não é o contrário.

“Estou há uma semana a tentar convencer a minha mãe a deixar de ir ao café todos os dias, como é seu hábito. Acho que a ela já convenci, mas ao meu pai, que é pneumologista, ainda por cima, ainda não.

Mas devia ser. Pelo menos enquanto durar esta ameaça grave à sua vida, provada que está a taxa de letalidade do novo coronavírus em pessoas mais velhas, com sistema imunitário debilitado e comorbilidades, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos ou respiratórios, e por aí fora, comuns entre a população portuguesa idosa.

 

Maria e os irmãos vivem em Lisboa. Os pais longe. E os últimos dias têm sido um sufoco. “Estou há uma semana a tentar convencer a minha mãe a deixar de ir ao café todos os dias, como é seu hábito. Acho que a ela já convenci, mas ao meu pai, que ainda por cima é médico, ainda não. Diz-me: ‘descansa que eu tenho cuidado, temos que tomar precauções, mas também não podemos limitar-nos tanto’”.

Os nossos pais não gostam de ser mandados. E por outro lado têm muita dificuldade de mudar rotinas de anos, resistem a tudo o que é mudança, nós se calhar também vamos ser assim”

A mãe tem 77 anos, o pai 82 e na semana passada ligou-lhes e estavam no Algarve, numa esplanada. “Imagine o meu estado de nervos. É que as pessoas espirram e tossem e as mesas não estão sempre a ser limpas. Mas eles têm sempre coisas para fazer na rua, parecem uns miúdos e nós cá a desesperar”, diz.

“Mas ontem estava a falar ao telefone com uma tia que tem 82 anos e ela dizia uma coisa curiosa: ‘eu que nunca fui muito de sair, agora só me apetece ir para a rua. Não gosto que me obriguem a estar em casa’. Acho que tem também que ver com isto. Os nossos pais não gostam de ser mandados. E por outro lado têm muita dificuldade de mudar rotinas de anos, resistem a tudo o que é mudança, nós se calhar também vamos ser assim”

Vamos com certeza, mas não em tempos de cólera, ou covid-19, por favor.

“Um tio meu, que tem 68 anos, estava com bilhete marcado para Itália para ir passar a Páscoa e só se convenceu a desmarcar no domingo e debaixo de muita pressão”.

“Eu já estou em casa em isolamento voluntário e teletrabalho e a maioria das pessoas da nossa idade que podem fazê-lo, estão a fazê-lo. Mas, só para ver, um tio meu, que tem 68 anos, estava com bilhete marcado para Itália para ir passar a Páscoa e só se convenceu a desmarcar no domingo e debaixo de muita pressão”. 

Ao contrário de Maria, Natália Costa vive a duas ruas dos pais, em Algés. Mas os últimos tempos têm sido igualmente uma dor de cabeça. Com uma diferença, Natália, que se assume “bossy”, ou mandona, em bom português, já conseguiu pôr os pais em “prisão domiciliária”.

“O meu pai tem 79 anos, a minha mãe tem 72 e ambos têm comorbilidades. Ela tem fibromialgia, ele é diabético e hipertenso e ir ao café e estar lá a ler o jornal ou ir ao mercado, como faziam todos os dias, tornou-se agora um perigo para a saúde. Foi muito difícil convencê-los, tivemos discussões terríveis e tive que acabar por recorrer a um autêntico terrorismo psicológico, de que me escuso a dar pormenores, para os fazer ficar em casa”.

“No segundo dia de isolamento apanhei a minha mãe em flagrante, na rua. Foi aí que tive que ser mais dura, ficaram tristes, mas é um sacrifício que temos que fazer agora”.

Neste momento, é Natália que vai às compras, deixa-as à porta de casa dos pais e fala com eles ao longe, pela janela, todos os dias.

“Eu própria estou em isolamento voluntário, com os meus filhos e o meu marido, a cumprir ao máximo o que nos é pedido. No segundo dia de isolamento apanhei a minha mãe em flagrante, que disse que ia à farmácia comprar máscaras. Foi aí que tive que ser mais dura, ficaram tristes, mas é um sacrifício que temos que fazer agora. É um esforço, mas temos que o fazer”.

“Está a preocupar-me o depois, o retomar da normalidade e das rotinas, esse vai ser o maior desafio. Esperemos que isto não dure muito, para que não seja um problema”.

Natália tem consciência de que é mais difícil para os mais velhos, que não dominam as novas tecnologias, e tem preocupações relativamente ao depois de tudo isto ter passado, mas neste momento, para a filha, não há dúvidas que os pais têm que se resguardar. 

“Claro que percebo que para eles é mais difícil, não conseguem ler os jornais online, mas no caso dos meus pais até têm um pátio, não têm que estar sempre dentro de casa. Eu digo-lhes para fazerem exercício, subir e descer escadas, mas já sei que não vão fazer. Está a preocupar-me o depois, o retomar da normalidade e das rotinas, esse vai ser o maior desafio. Esperemos que isto não dure muito, para que não seja um problema”.

Teresa, também a viver em Lisboa e com os pais em Coimbra, as mesmas aflições. O pai, que era informático, tem 76 anos, a mãe que era enfermeira e toda a vida trabalhou em infecciologia, tem 74. “Telefono à minha mãe e ela diz-me que o meu pai foi com o carro à oficina ou que foi ao pão ou que foi ao supermercado. Ela também não abdicou ainda do café com as amigas. Acham que isto é tudo um exagero. Para eles está tudo bem e nós aqui aflitos, a tentar convencê-los a ficar em casa o mais possível pelo menos até passar o pior”.

“Ir à rua e ao café é o que os faz sentirem-se ativos, é a vida deles, é tudo o que têm e é muito difícil tirar-lhes isso. Toda a gente com quem falo está a ter o mesmo problema com os pais. São os que deviam estar mais assustados e são os que estão mais tranquilos”

No início, Teresa Neto confessa que também ela desvalorizou a gravidade da epidemia. “Não estava assustada porque aprendi com a minha mãe a ser descontraída em relação às coisas de saúde, mas agora estou com medo, sobretudo que se entre em rutura, porque não há sistema de saúde que aguente uma coisa destas se não for contida. E tenho medo pelos meus pais, que são altamente vulneráveis. Além da idade, ele é diabético e tem uma carótida entupida, ela é hipertensa”.

A distância não ajuda. “Não é bom ir lá agora, porque não sabemos se estamos a levar vírus, mas pelo telefone também não conseguimos grande coisa. O meu pai era informático, sabe muito bem fazer compras online, mas ir ao supermercado às compras e à rua e ao café é o que os faz sentirem-se ativos, é a vida deles, é tudo o que têm e é muito difícil tirar-lhes isso. E toda a gente com quem falo está a ter o mesmo problema com esta atitude dos pais. São os que deviam estar mais assustados e são os que estão mais tranquilos”, diz.

Porque é que eles não ficam em casa?

Uma volta por Lisboa, por Coimbra ou por Almada, onde vivo, confirma esta resistência dos mais velhos, que mantêm vitalidade e autonomia, em ficarem a casa, quando à solta anda um vírus que ameaça a sua saúde. E a vida. 

Nas filas de supermercado, nos mercados, nas padarias, à mesa dos cafés, sobretudo pela manhã, lá estão eles, a manter as suas rotinas.

“Já vivi muitas vidas, sabe? É por isso que estamos mais despreocupados do que os mais novos, que têm a vida toda pela frente”

Entre a dezena de pessoas, se tanto, que às nove e meia da manhã, bebia o seu café no Central, em Almada, oito eram idosos. Quatro dispensaram a conversa. Numa mesa resguardada, sozinho, um senhor de barba rala e cabelos brancos lia atentamente a concorrência.

“Bom dia, sou jornalista do Diário de Notícias e estou a fazer uma reportagem sobre como os mais velhos estão a lidar com o novo coronavírus”. “Mas eu não sou velho”, responde-me, levantando os olhos da leitura.

Perante o meu visível desconcerto, sorri em silêncio e os olhos convidam-me a sentar. “Então, diga lá.” “É que, quando saio para comprar pão ou ir ao supermercado, a maioria das pessoas que vejo na rua são mais velhas e queria perceber porquê. Não têm medo?”.

Não quer dizer o nome, mas a idade sim: 84. E outra vez o sorriso: “’que sera, sera‘, como cantava a Doris Day. As pessoas com a minha idade já não se assustam, já passaram por muita coisa, outras guerras, outras epidemias. Eu tinha dez anos quando foi o racionamento devido à Segunda Guerra Mundial. Já vivi muitas vidas, sabe? É por isso que estamos mais despreocupados que os mais novos, que têm a vida toda pela frente”, diz tranquilo. “Estou aqui no café e sou criticado pela minha filha, que só falta bater-me (estou a brincar) porque desespera de eu não ter mudado nada na minha rotina”.

“Venceu-se a gripe asiática e também vai vencer-se esta. A ciência avançou muito e estou certo de que temos capacidade para encontrar uma solução”

Enquanto eu expresso toda a minha solidariedade para com a filha deste homem que prefere não dizer o nome, ele continua a explicação.

“Por enquanto, faço a minha vida normal, tomando as precauções necessárias. Acredito que o calor, na primavera e no verão, vai amenizar as coisas, mas não acho que as medidas do governo sejam um exagero. O governo tem que dar resposta às preocupações da população, já fui dirigente e sei que governar não é fácil. Estava aqui a ler um artigo que diz precisamente que se a Itália tivesse tomado medidas mais cedo não teria chegado à situação a que chegou, por isso considero positiva a atuação do governo português e o que for decidido acatarei. Paciência, terei de respeitar, mas vai fazer-me falta vir ao café e ler o jornal todos os dias. Cada caso é um caso, há pessoas que não conseguem estar paradas e esse é o meu caso”, diz, convencido de que não há razões para entrar em pânico.

“Venceu-se a gripe asiática e também vai vencer-se esta. A ciência avançou muito e estou certo de que temos capacidade para encontrar uma solução. Só não há remédio para uma coisa: a estupidez.”

“Sinto-me bem. A minha filha é que está muito preocupada, até me comprou um frasquinho de gel desinfetante. O meu problema é ver este país parado. Que consequências é que tudo isto vai ter para a economia nacional?”

Do outro lado da sala, Feliciano Santos, 82 anos, também bebe o seu café. Diz que tem tempo para estar fechado quando morrer. “Evito contactos, mantenho distância, lavo as mãos, mas ficar fechado em casa é que não. Quando vier, vem. Ninguém fica cá. Já vivemos o que tínhamos a viver. Mas eu sinto-me bem. A minha filha é que está muito preocupada, até me comprou um frasquinho de gel desinfetante” – mostra -, “mas eu ligo pouco a isto. O meu problema é ver este país parado. Que consequências é que tudo isto vai ter para a economia nacional?”, pergunta.

Se for declarado o estado de emergência e a quarentena obrigatória, não terá outro remédio senão ficar em casa. “Mas digo-lhe que será um grande sacrifício. Nunca parei em casa, não consigo. Olhe, já viu que parece que até o Jorge Jesus já está infetado? Nem os ricos se safam”.

“Ou seja porque antes era mais nova ou não sei, mas desta gripe tenho mais medo”, diz Maria Júlia. Mas continuam a vir ao café. “Porque gostamos muito e para não estarmos fechados o dia todo. Como diz a minha neta, é uma seca estar fechado”, diz Eduardo.

Maria Júlia e Eduardo da Silva, ela 84 e ele 85, casados há 63 anos, sentam-se numa mesa perto, à janela. Vir ao café de manhã é um ritual e é uma das poucas coisas que os faz sair de casa. “Daqui a nada, vamos embora e já não saímos mais”, diz ela. “Vimos matar o vício, enquanto podemos”.

Confessam medo do novo coronavírus e passaram a adotar os cuidados aconselhados pela diretora geral de saúde. “Há 15 dias que não vejo os meus netos. Só falamos por telefone”. Já passaram por muita coisa, mas não se lembram de uma como esta. “Ou seja porque antes era mais nova ou não sei, mas desta gripe tenho mais medo”, diz Maria Júlia. Mas continuam a vir ao café. “Porque gostamos muito e para não estarmos fechados o dia todo. Como diz a minha neta, é uma seca estar fechado”, diz Eduardo, que tem esperança na ciência.

“Acho que vai resolver-se. Os alemães dizem que já arranjaram uma vacina, os americanos queriam comprar, mas a Merkel não deixou. Na China resolveram bem o problema, ninguém sai e ninguém entra e agora estão melhor que os italianos. Cá só agora é que fecharam as fronteiras”, diz ele.

“Não digas mal do governo, porque ninguém está preparado para isto. Queria ver-te lá a ti. Se for decretada a quarentena, fico em casa, o que eles disserem para fazer, eu faço” diz ela. “Sim, ainda quero durar mais uns vinte anos”, conclui ele.

Nós, filhos, queremos o mesmo. Fiquem em casa. Sigam os conselhos que passaram a vida toda a dar-nos. Tenham juízo.







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