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Moradores assistem à banalização dos tiroteios a qualquer hora no Rio
Publicado Sábado, 3 de Fevereiro de 2018, às 11:26 | Fonte Do G1 por Jornal Nacional 0
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Nos últimos dias, os brasileiros têm acompanhado uma escalada de violência assustadora, no Rio de Janeiro. Tiroteios a qualquer hora do dia com reflexos na vida de toda a cidade. Na vida dos cidadãos, principalmente dos moradores de uma favela que está na linha de tiro.

Tem sido assim acordar na Cidade de Deus...

“Eu saio para trabalhar, em vez de um ‘bom dia’, tem barricada, fuzil na esquina apontado, bandido de um lado, polícia do outro. E você se vê em uma guerra que não é sua. Tenta se proteger, tenta levar uma vida que de normal não tem nada”, conta uma mulher.

As palavras são de uma moradora da favela. Na Cidade de Deus, para ter voz não pode mostrar o rosto. É mais uma imposição da violência. E hoje para ouvir quem está lá dentro, só ouvindo mensagens. 

“Ai... Eu estou cansada dessa rotina de violência, sabe? Sair para trabalhar passou a ser um filme de terror. Você não sabe se consegue sair e muito menos retornar. É muito tiro, muito inocente sendo coagido”, afirma a mulher.

A Cidade de Deus foi o local com maior número de tiroteios em 2018: 50 na conta do aplicativo Onde Tem Tiroteio. Desde 2015, a cada quatro dias, uma pessoa morre de forma violenta na comunidade.

Difícil fazer até as coisas mais banais.

“Muitas pessoas não conseguem sair de casa para fazer nada. Muitas pessoas não conseguem sair de casa para poder ir trabalhar, as pessoas não conseguem sair de casa para fazer seus afazeres. As pessoas não conseguem sair de casa para comprar algo no mercado”, diz uma moradora.

“Ontem teve aniversário de uma amiga e a gente teve que esperar o tiro parar para gente poder ir para o rodízio. E, no meio do rodízio, a gente ficou sabendo, pela mãe de um amigo, que a polícia poderia entrar a qualquer momento. Ou seja, no meio do rodízio a gente teve que voltar para casa. Não pudemos nem curtir o aniversário da nossa amiga”, diz uma mulher.

“Aí a polícia entra, né? Os bandidos atacam, e quem sofre mais é o morador, que perde o direito de ir e vir. Não sabe se vai, se tem segurança, se vai conseguir comprar um pão na padaria”.

Na noite de quinta-feira (1º), uma jovem de 19 anos foi baleada justamente quando ia a uma padaria. O tiro acertou Natacha Aparecida Cruz na barriga. Ela já teve alta. Os moradores sabem que poderia acontecer com qualquer um.

“Telefone, quando toca, dá até medo. Porque você saiu, mas deixou em casa filho, pai, família. É angustiante. É inaceitável, na verdade”.

“Na verdade, não é só hoje, né? É só mais um dia. Disso, do que acontece, não só na Cidade de Deus, como em outras favelas”.

A situação de hoje ameaça também o futuro.

“Brevemente, as crianças estão começando as aulas, muitas não estudam aqui na comunidade, vão precisar pegar condução. E como é que vai ficar a situação? Eu vejo que a saída para isso tudo é a educação. E nossas crianças estão sendo privadas disso”.

Tem sido assim acordar na Cidade de Deus. E assim, como chegar ao fim do dia acreditando que a amanhã pode ser diferente?

“Eu rogo por uma solução. Aqui tem gente de bem, sim. Gerações de pessoas batalhadoras que vivem sua luta diária pela sobrevivência. Então, não dá para aceitar. Eu peço paz. Eu peço uma solução”.

“Sou moradora da Cidade de Deus há mais de 40 anos. A gente só vê falar ‘Cidade de Deus, Cidade de Deus’. E o que que a Cidade Deus mudou nesse tempo todo? A gente só vê a violência crescendo. O que foi feito pela Cidade de Deus? O que pode ser feito pela Cidade de Deus?”.

 







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