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Deonísio da Silva: Fala aí, chefia!
Publicado Segunda-Feira, 2 de Outubro de 2017, às 16:41 | Fonte Veja.com 0
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Correios apresentaram prejuízos de R$ 313 milhões em 2013; de R$ 20 milhões em 2014, e de R$ 2,1 bilhões em 2015

Correios apresentaram prejuízos de R$ 313 milhões em 2013; de R$ 20 milhões em 2014, e de R$ 2,1 bilhões em 2015 (Raulo Spinassé/Agência A Tarde/Folhapress/VEJA/VEJA)

 

 

 

 

 

O que tem a ver com a Língua Portuguesa a crise de instituições outrora referenciais da qualidade dos serviços públicos, comunitários ou privados?

Diz a mídia que nos Correios há um chefe para cada dois servidores. A qualidade dos serviços desabou nos últimos tempos. A derrocada coincidiu com a explosão dos cargos de chefia.

Porém, sob a estrutura profunda do descalabro das instituições em crise jaz uma situação paradoxal: os chefes não são chefes. Não raro eles atuam como cúmplices ou reféns, mas chefes, não.

Vejamos. Tradicionalmente, o Português do Brasil usa o imperativo para pedir, e o subjuntivo para mandar. A expressão das rezas “rogai por nós” pede ou manda? “Publique-se” é uma ordem? Mudando o verbo, poder-se-ia mandar ou pedir na lanchonete “faça-se um sanduíche”?

O poeta Luís Vaz de Camões deu ordens precisas a ninguém menos que o todo-poderoso rei de Portugal: “Tomai conselho só de experimentados,/ Que viram largos anos, largos meses,/ Que, posto que em cientes muito cabe,/ Mais em particular o experto sabe”.

Mas, então, ele mandava no rei, uma vez que usou o imperativo? E note-se que usou “experto” e não “esperto”, de onde derivaram esperteza e espertalhão, que hoje sobram no Brasil, enquanto a expertise cai. O Português do Brasil reluta em aportuguesar o Inglês expertise.

Estudando as complexas sutilezas destas variações, de acordo com o contexto em que as ordens são dadas, João Malaca Casteleiro, professor catedrático aposentado da Universidade de Lisboa, publicou um livro saboroso cujo título, A arte de mandar em português (Editora Lexikon), mede a frequência com que alternamos estas formas verbais para dar ordens e preferimos ordens afirmativas em vez de ordens proibitivas.

Nos exemplos que ele colheu, o Português do Brasil em 64,49% dos casos prefere o subjuntivo para ordenar, e usa o imperativo em apenas 19,2% deles.

Em Portugal, a língua é a mesma, assim como em toda a África portuguesa e em outros países que integram a comunidade lusófona, mas o português europeu usa o imperativo em 42,25% dos casos para dar ordens, e o subjuntivo em apenas 43,49% deles, uma diferença de 21% no interior da mesma língua.

Podemos concluir que Portugal manda de um modo bem diferente do que se manda no Brasil. Já quando se mede a porcentagem entre ordens afirmativas (faça isso) e ordens negativas (não faça isso), o equilíbrio é perfeito: 68,49% para o Português europeu, e 68,53% para o Português do Brasil nas ordens afirmativas, e 15,25% e 15,12% respectivamente nas ordens negativas.

Pode ser que o Brasil tenha excessivos cuidados ao dar ordens, tão excessivos que raramente elas são cumpridas. E isso afetou os órgãos públicos numa escalada jamais vista nas últimas décadas, em proporção a ser analisada à luz deste livro interessantíssimo e revelador, que poderá servir de ferramenta para melhor entendermos o binômio empresa pública x empresa privada.

E o autor nem pensou nisso quando defendeu este livro como tese, no longínquo 1961, na Universidade de Lisboa.

 





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