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Nova era do petróleo na Foz do Amazonas
Petroleiras planejam instalar base marítima no Porto de Belém, no Pará
A petroleiras planejam, por exemplo, instalar sua base marítima no Porto de Belém, no Pará, onde equipamentos como tubos de perfuração e brocas já estão armazenados
Publicado Quinta-Feira, 18 de Maio de 2017, às 20:22 | Fonte Reuters 0
http://www.ariquemesonline.com.br/noticia.asp?cod=329006&codDep=38" data-text="Petroleiras planejam instalar base marítima no Porto de Belém, no Pará

  
 
 

Reuters

Sentada à mesa em sua pequena e bucólica ilha no rio Oiapoque, exatamente entre o Brasil e a Guiana Francesa, a moradora brasileira mais ao norte do país, Valéria Leal, reflete sobre a retomada da exploração de petróleo na região amazônica do Amapá.

Ela teme que o Estado, que abriga um dos maiores berçários de vida marinha e de floresta preservada do mundo, fique apenas com os riscos ambientais da atividade petrolífera, uma preocupação de muitas comunidades, como pescadores e indígenas.

Apesar da crescente oposição de ambientalistas, uma nova era de perfurações na Bacia da Foz do Amazonas, a 120 quilômetros da longínqua cidade de Oiapoque, está para começar neste ano.

Lá, um consórcio da francesa Total com a britânica BP e a Petrobras aposta realizar a próxima grande descoberta de petróleo em águas profundas do país. As companhias gastaram mais de 600 milhões de reais apenas na aquisição de cinco blocos exploratórios na área, de olho em reservas gigantes estimadas em 14 bilhões de barris in situ, que incluem possíveis jazidas adjacentes.

Somente a petroleira francesa, líder do consórcio, investiu em atividades na região outros 200 milhões de reais. Mas até agora praticamente nada chegou aos moradores, até porque o investimento exige equipamentos e infraestruturas não encontradas no Amapá, um dos Estados mais pobres do país e que em 2016 registrou a maior taxa de desemprego.

"Se fosse para o bem comum, seria bom... Nós aqui no extremo norte estamos completamente desassistidos... não sei quais as vantagens que virão, se tudo será feito fora daqui", afirmou Valéria, que mora na ilha com seu marido, há 27 anos, a cerca de 50 km da foz do rio Oiapoque.

A petroleiras planejam, por exemplo, instalar sua base marítima no Porto de Belém, no Pará, onde equipamentos como tubos de perfuração e brocas já estão armazenados, aguardando o início das perfurações.

"Se for para usar o Pará como base para eles, será igual quando os portugueses vieram para cá e levaram tudo sem nenhum benefício", disse o indígena Adair Jeanjaque, de 25 anos, da etnia Galibi, ao receber à Reuters em sua aldeia, às margens do Oiapoque, fonte de sustento de grande parte da população local.

A preocupação com as possíveis perfurações não é privilégio apenas de Oiapoque, uma cidade com cerca de 23.600 moradores, e já corre por municípios litorâneos ao sul do Estado, como Calçoene, onde não é difícil encontrar pescadores que saibam ou tenham tido contato com as empresas de petróleo.

Enquanto isso, o Ibama ainda avalia se as perfurações podem colocar em risco a complexa e amplamente desconhecida biodiversidade da região, ainda que as empresas já tenham realizado pesados investimentos.

O Ministério Público Federal no Amapá, inclusive, recomendou ao Ibama nesta semana que suspenda a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, até que sejam avaliados os impactos da atividade na barreira de corais existente na região. O Ibama informou na quinta-feira que ainda não havia sido notificado.

Grandeza ambiental

A Bacia da Foz do Amazonas se estende ao longo de toda a costa do Estado do Amapá e da Ilha de Marajó (Pará) e abriga o maior cinturão contínuo de manguezais do planeta, que chega a ter 80 quilômetros de largura em alguns pontos, formado pelas toneladas de sedimentos trazidos ao mar pelos rios amazônicos todos os anos, incluindo o rio Amazonas, o maior do mundo.

Além disso, o mar do Amapá tem recifes de corais, rodolitos e esponjas com propriedades inéditas, de acordo com uma descoberta publicada no ano passado na revista Science Advances, que chocou a comunidade científica com a extensão do ecossistema que está em águas mais profundas do que o comum, de mais de 100 metros de profundidade.

Localizados logo após o limite da mancha de sedimentos pesados que vêm da Amazônia, os recifes podem ser o lar de espécies inteiramente novas, incluindo um tipo de peixe borboleta tropical que se destaca pelo colorido brilhante, dizem os pesquisadores.

A publicação chamou a atenção da ONG Greenpeace, que lançou uma forte campanha em defesa dos corais amazônicos e contra a tentativa de abertura de uma nova fronteira petrolífera.  

A existência dos recifes no Amapá, que estão a apenas 28 quilômetros de uma das perfurações previstas pela Total, já era conhecida pelo Ibama e pesquisadores em geral, mesmo antes do leilão das áreas em 2013, mas o conhecimento sobre eles ainda é muito escasso, mesmo após a publicação do artigo.

"O Amapá é realmente um Estado esquecido pelos brasileiros e nós mesmos não tínhamos ideia de todas as ameaças... grande parte da população depende dos oceanos... dos mangues e da floresta. O risco de um vazamento de grandes proporções chegar nessa costa afetaria grande parte da população", disse o porta-voz da campanha, Thiago Almeida.

A Total, empresa que lidera o consórcio de petroleiras com blocos na Foz do Amazonas, afirmou estar ciente das questões ambientais da região e, desde 2015, quando deu entrada no licenciamento, vem fazendo um trabalho junto ao Ibama para prevenir impactos ambientais.

"As atividades de petróleo e gás já convivem com sistemas sensíveis... Quando o Brasil licitou esses blocos, entendemos que era uma vontade, uma decisão soberana... para pesquisar se existia ou não petróleo, conhecendo a existência desse ecossistema", disse à Reuters Maxime Rabilloud, que está na presidência da Total no país há cerca de dois anos.








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