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Por que dois melões e um cacho de uvas podem custar o mesmo que um carro novo no Japão
Publicado Domingo, 2 de Abril de 2017, às 19:03 | Fonte BBC BRASIL 0
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Melões

ALFIE GOODRICH - Image caption - Em 2016, dois melões colhidos na cidade de Yubari, no norte do país, foram vendidos em um leilão por US$ 27 mil (R$ 84,2 mil)

 

 

Qual presente seria capaz de despertar um sorriso maior: um carro ou uma cesta de frutas com dois melões e um cacho de uvas?

 

Para muitos, a resposta óbvia seria o veículo. Mas não no Japão, onde as frutas têm valor especial como presentes.

 

E, em alguns casos, podem custar mais que um carro: em 2016, dois melões colhidos na cidade de Yubari, no norte do país, foram vendidos em um leilão por US$ 27 mil (R$ 84,2 mil).

 

Em junho daquele mesmo ano, um cacho de uvas do tipo Ruby Roman (vermelhas e do tamanho de uma bola de ping pong), foi comprado por US$ 11 mil (R$ 34,3 mil).

 

Mas por que os japoneses pagam fortunas por frutas que em qualquer mercado do mundo alcançariam preços bem mais modestos?

 

"Um amigo japonês me disse que essa pergunta equivale a alguém nos perguntar no Ocidente porque apertamos as mãos como saudações", explica Bianca Bosker, blogueira especializada em temas japoneses.

 

Mas a resposta combina a tradição japonesa de dar presentes como forma de agradecimento com a habilidade dos agricultores para cultivar frutas especiais que reluzem quase como joias.

 

"Uma pessoa pode viver sem comer frutas", diz à BBC Ushio Oshima, proprietário da Sembikiya, loja de Tóquio especializada em frutas de luxo.

 

"No Japão, nos especializamos em dar frutas como presentes", acrescenta.

 

Na loja, que mais parece uma joalheira, há frutas que podem custar até US$ 13 mil (R$ 40,6 mil).

 

Para que as frutas alcancem esse valor, o processo é complexo e rigoroso: durante séculos, os japoneses aperfeiçoaram a forma de produzir frutas e carnes.

 

 

Melões

ALFIE GOODRICH - Image caption - Durante séculos, japoneses aperfeiçoaram a forma de produzir frutas e carnes

 

 

Melões e uvas têm atenção especial, e os primeiros frutos da estação são ansiosamente esperados, recebendo até um nome específico em japonês: hashiri.

 

"Todas as frutas que custam fortunas são hashiri", diz a blogueira Bosker.

 

Cultivo rigoroso

 

Yubari é uma cidade na ilha de Hokkaido, no norte do Japão, que se tornou famosa nos últimos 50 anos pelos melões e pelos métodos de cultivo rigorosos.

 

"Há cada ano, há uma nova família de sementes. Quando os primeiros frutos, que estão em um ambiente controlado, começam a crescer, os defeituosos são descartados", diz à BBC Masaomi Susuki, um dos principais agricultores da região.

 

Os melões são plantados em uma terra rica em cinza vulcânica e regada com um método em que até a pureza da água é controlada. Seu funcionamento é quase um segredo de Estado.

 

"O cultivo comum passa por deixar crescer vários frutos de uma mesma planta, enquanto nós permitimos apenas um. E todos os frutos estão colocados em uma mesma altura", conta Susuki.

 

São famosas entre os japoneses fotos dos melões cobertos com uma espécie de chapéu de lona para que cresçam perfeitamente redondos.

 

 

Melões

ALFIE GOODRICH - Image caption - São famosas entre japoneses fotos de melões cobertos com espécie de chapéu de lona para que cresçam perfeitamente redondos

 

 

"Dessa forma, fazemos com que os frutos cresçam de forma sustentável e com a quantidade perfeita de sol e sombra. Isso controla até o quão doce o melão será", explica o agricultor.

 

A arte desses melões é dominada por menos de 150 fazendeiros em todo o Japão e, segundo as autoridades de Yubari, respondem a 97% da receita da pequena localidade.

 

Os hashiris são colhidos em maio.

 

"O sabor do Yubari King, como são conhecidos os melões, fica entre doce e picante. É uma mistura de varieades americanas e europeias", diz Laura Conde, especialista em gastronomia da revista americana Vanity Fair.

 

Leilões

 

No Japão, leilões são um fenômeno cultural: no mercado de peixes de Tusikiji, en Tóquio, compradores se reúnem nas primeiras horas da madrugada para disputar o melhor atum.

 

 

Kiyoshi Kimura

GETTY IMAGES - Image caption - Kiyoshi Kimura pagou cerca de US$ 117 mil (R$ 365,3 mil) por 200kg de atum en janeiro de 2016

 

 

As sessões são um espetáculo marcado por gritos, ofertas urgentes e que terminam com algum preço astronômico sendo alcançado.

 

Em janeiro de 2016, por exemplo, Kiyoshi Kimura pagou US$ 117 mil (R$ 365,3 mil, em valores atuais) por um atum de 200kg.

 

"Os leilões do início do ano têm preços muito maiores, porque os compradores buscam uma espécie de sorte para o resto do ano", explica o correspondente da BBC no Japão, Rupert Wingfield-Hayes.

 

As frutas que "escapam" dos leilões vão parar em lojas de frutas de luxo, como a Sembiyika.

 

 

Mangas leiloadas no Japão

GETTY IMAGES - Image caption - Mangas também são leiloadas no Japão

 

 

Além da qualidade das frutas, a embalagem também faz diferença.

 

"No Japão, a tradição estabelece duas temporadas para presentes: o verão e o inverno. E não se limita às famílias: é também um gesto de agradecimento a chefes ou sócios", explica o proprietário da loja.

 

Daí a importância da apresentação - mais precisamente de embalagens meticulosas, mas sem ostentações -, parte do ritual que acompanha as compras de grande parte da sociedade japonesa.

 

"As frutas precisam de brilho e ser bem apresentadas. É por essa combinação que as pessoas pagam", diz Oshima.

 





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