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Cientistas em marcha
Publicado Quarta-Feira, 29 de Março de 2017, às 11:35 | Fonte Galileu 0
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(ILUSTRAÇÃO: GUILHERME HENRIQUE)

 

 

A comunidade científica dos Estados Unidos entrou em alerta quando, no início de janeiro, informações sobre o aquecimento global foram retiradas do site da Casa Branca.

 

Na mesma época, um comunicado enviado a quatro agências federais norte-americanas informava que os cientistas não deveriam divulgar nenhuma informação a menos que fossem autorizados por seus superiores. Para completar, o recém-empossado presidente Donald Trump nomeou Scott Pruitt, conhecido inimigo dos ecologistas, como secretário da agência de proteção ambiental do país. Durante a campanha eleitoral, o então candidato Trump chegou a afirmar que o discurso sobre o aquecimento global era um plano da China para desacelerar a economia norte-americana. Diante desse cenário, os cientistas arregaçaram as mangas dos jalecos e foram à luta.

 

Inspirado na Marcha das Mulheres, mobilização que ocorreu em Washington no dia seguinte à posse de Trump, um protesto batizado de Marcha da Ciência está marcado para ocorrer na capital norte-americana no dia 22 de abril, data que comemora o Dia da Terra e relembra a importância da luta pela proteção ambiental do planeta. “Um monte de gente teve essa ideia ao mesmo tempo no Twitter”, afirma Jacquelyn Gill, pesquisadora em mudanças climáticas na Universidade do Maine e uma das organizadoras do movimento de cientistas. Com o engajamento de pesquisadores de diferentes lugares, foram convocadas mais de 350 marchas que tomarão as ruas de outras cidades dos Estados Unidos e do resto do mundo.

 

PARA ALÉM DA BOLHA

 

Na opinião de Jacquelyn Gill, a presidência de Donald Trump não é a origem dos problemas da ciência norte-americana. “Existem muitos grupos, mais especificamente corporações, que têm trabalhado para minar a ciência, especialmente quando os dados ou pesquisas vão contra seus interesses”, revela a organizadora da Marcha dos Cientistas.

 

Em 2014, o senador Lamar Smith tentou emplacar a lei da “Ciência Secreta”, projeto que impediria a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) de criar regulamentações para políticas públicas baseadas em pesquisas. O projeto não foi aprovado, mas o parlamentar afirma que retomará a discussão em breve — apoiado por empresas da indústria de gás e óleo, Smith é conhecido por atacar os pesquisadores que estudam o aquecimento global.

 

“Há grupos que não aceitam investimentos em pesquisas sobre a sexualidade de adolescentes e homossexuais, por exemplo”, diz Emilio Moran, professor da Universidade de Michigan e membro do Conselho Nacional de Ciência (NBS) dos Estados Unidos. “Essas pessoas entram com ações políticas pedindo que se bloqueie o financiamento. Isso vem ocorrendo há mais de uma década.” De acordo com o professor, o conservadorismo e a falta de esclarecimento de parte da população também são entraves para valorizar o trabalho dos cientistas. “É incrível que o país lidere a ciência no mundo e que metade da população norte-americana não acredite em evolução”, destaca.

 

Os próprios pesquisadores consideram, no entanto, que é necessário furar a bolha acadêmica de teses e relatórios e dialogar com o restante da sociedade com o objetivo de aproximar as pessoas da ciência. “Nós nem sempre fazemos um bom trabalho em nos conectar com a comunidade e conversar com as pessoas sobre aquilo que fazemos”, conta Jacquelyn Gill. “Parte dos indivíduos não nos veem como humanos ou membros da sociedade. Ficamos de fora, voltados para nós mesmos.”

 

LUTA CONTRA O RETROCESSO

 

Apesar do receio de represálias, como a diminuição do orçamento público destinado às pesquisas, os cientistas acreditam que é preciso tomar uma posição política no momento vivido pelos Estados Unidos. “Não estamos falando apenas por nós, pois a ciência é para todos. Se não pudermos monitorar o ar limpo e a água limpa, não são só os cientistas que sofrerão por isso, mas todas as pessoas que dependem do nosso trabalho e confiam em nós”, diz Gill. “Nós também somos cidadãos, somos tão parte da comunidade quanto qualquer um, e temos o direito e o dever de ter voz política.”

 

Inspirada na Marcha da Ciência, uma mobilização brasileira será realizada no final de abril para chamar a atenção dos problemas enfrentados pela comunidade científica do país. Uma das organizadoras do movimento, a pesquisadora Márcia Cristina Barbosa, professora de física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que o atual cenário político e econômico do Brasil é marcado por retrocessos para a ciência. “Ideologicamente, a ciência sempre foi atacada no Brasil. Há pessoas que não querem falar sobre as células-tronco, por exemplo”, diz. “Parece que já nos acostumamos com o descrédito da ciência por aqui.”

 

Em maio do ano passado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi incorporado ao Ministério de Comunicações, em uma medida criticada pelos pesquisadores por extinguir uma pasta exclusiva para discutir a ciência no país. No final de janeiro, o governo do estado de São Paulo também retirou 10% do orçamento destinado à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) — após manifestações, a decisão foi revertida e R$ 120 milhões foram devolvidos ao fundo de pesquisas.

 

Com a realização da marcha, no entanto, a professora Márcia Cristina Barbosa acredita que será possível mostrar à população a importância da atividade científica e seu impacto no avanço intelectual, econômico e tecnológico do país: “Seu filho precisa saber o que é ciência, ele precisa fazer ciência. O Brasil não pode se conformar em ser um país de segundo escalão.”

 

Censura

 

Dados sobre o aquecimento global foram removidos dos sites de agências públicas dos Estados Unidos

 

AS MEDIDAS DE TRUMP

 

Dezembro de 2016: Governo solicita o nome dos cientistas do Departamento de Energia que fizeram pesquisas sobre mudanças climáticas.

Janeiro de 2017: Informações referentes ao aquecimento global são retiradas do site da Casa Branca.

Fevereiro de 2017: O antiambientalista Scott Pruitt é confirmado chefe da EPA, agência de proteção ambiental  do país.

Março de 2017: Trump propõe corte de quase 20% no orçamento do NOAA, instituição de pesquisa atmosférica.

 

 

A MARCHA DA CIÊNCIA AO REDOR DO PLANETA

 

 

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*Com supervisão de Thiago Tanji







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