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espiritualidade e religião
Por que tanta polêmica com a bebida sagrada do Santo Daime?
A corrente mais famosa do chá de Ayahuasca é conhecida como União do Vegetal (UDV).
Publicado Quarta-Feira, 8 de Fevereiro de 2017, às 20:27 | Fonte Jornal de Brasília 0
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Carla Rodrigues

 

carla.rodrigues@jornaldebrasilia.com.br

“Existe o Rian antes e depois da Ayahuasca”. A afirmação é do ator Nizo Neto, em entrevista em que aponta o chá, conhecido como Santo Daime, como um dos fatores responsáveis pela morte do filho Rian Brito, de 25 anos. Segundo a Polícia Civil, porém, trata-se de uma “fatalidade”. Desde então, a família do neto de Chico Anysio reiniciou a discussão em torno da bebida que, por outro lado, é defendida como doutrina espiritual capaz de expandir as fronteiras da mente (leia mais sobre o caso no Saiba mais). 

Após as acusações, que envolveram até a atriz da TV Globo Leona Cavalli – dirigente de uma comunidade de Ayahuasca no Rio de Janeiro –, psiquiatras, psicólogos e especialistas em drogas apontaram os riscos do Daime. Por outro lado, garantem seguidores da doutrina, para ingerir a bebida com a real intenção do autoconhecimento, é necessário preencher   ficha informando, entre outras coisas, histórico de quadro psiquiátrico, remédios (quais), drogas e antidepressivos. 

No DF, são inúmeros seguidores da doutrina. Betto Maia, 58 anos, é um dos dirigentes da Aldeia Amor Lakota, um dos 19 institutos da corrente do Daime no DF. Sua comunidade fica na Cidade Ocidental (GO), e os encontros ocorrem, como na maioria dos locais, aos sábados.

“A gente prefere o sábado porque, normalmente, é o dia de tomar uma cerveja, ir a uma festa ou a um churrasco com amigos. E a nossa proposta é uma mudança de estilo de vida. Não é vir, tomar o chá e ir embora. A ideia é que, a partir do autoconhecimento, a pessoa consiga se livrar de vícios”, justifica Betto. Ele conta que conheceu o Daime em 2002, junto com a esposa e uma amiga. Na época, lembra, tinha seus “preconceitos”.

“A Lúcia (esposa) e a amiga estavam muito mais curiosas do que eu. Eu não queria ir. Fui todo desconfiado”, lembra Betto, coronel aposentado da Polícia Militar, um dos motivos pelos quais não queria tomar o chá. “Eu tinha preconceito com aquilo. Não sabia se era certo. Se eu poderia tomar, entende?”, desabafa. Porém, a mulher e a amiga gostaram da experiência e ele resolveu acompanhá-las outras vezes. Desde então, percebeu que o chá não é “coisa de doidão”.

“Não é só beber o chá e pronto”

Antes de ingerir a bebida, os iniciantes precisam preencher uma ficha. Os cuidados, inclusive, fazem parte do ritual. “Não é chegar aqui, dizer que quer beber o chá e pronto. Os dirigentes sérios tomam cuidado. Se a pessoa quer beber o chá e fumar maconha, para nós, já não pode ficar”, explica o Betto Maia, um dos dirigentes da Aldeia Amor Lakota.

No Brasil, desde 1930

Betto Maia, um dos dirigentes da Aldeia Amor Lakota, instituto da corrente do Daime no Distrito Federal, assim como todos os dirigentes da religião devem fazer, estudou o Ayahuasca, buscou informações e, hoje, explica em detalhes toda a história.

Ele conhece a doutrina desde que surgiu no Brasil, quando o seringueiro Raimundo Irineu Serra cristianizou a bebida, no Acre, em 1930. “O chá é feito a partir da fervura de duas plantas: o cipó jagube, que representa o sagrado do homem, e a chacrona, que representa o sagrado da mulher. O cipó só pode ser manipulado por homens, e a chacrona, por mulheres”, explica Betto, coronel aposentado da Polícia Militar. 

A partir da colheita, começa todo o ritual, que envolve a chamada espiritualidade do chá do Santo Daime. “O Ayahuasca é colhido em oração, transportado em oração, feito em oração e bebido em oração”, salienta outro dirigente do instituto Aldeia Amor Lakota, Darci Feitosa. 

O professor conheceu a bebida em 2007 e, desde então, conta, mudou radicalmente seu estilo de vida. “Antes, minha chácara era um ponto de encontro para churrascos, para beber com amigos. Hoje, ainda com amigos, é um local de oração, de encontro com Deus”, afirma o dirigente. 

“Mundo do sentir”

Darci tem uma chácara, no Jardim Ingá, em Luziânia (GO), voltado apenas para as sessões do Santo Daime. Ele chegou a erguer uma igreja no terreno. Ali, conta, oram e entram em contato com o “mundo do sentir” após beber o chá. 

O professor diz ainda que a doutrina é utilizada por ele para resgatar pessoas viciadas em drogas. “A Ayahuasca é uma ferramenta de ajuda. Eu tenho pessoas que estão aqui que eram assaltantes. Hoje, são distribuidores de cestas básicas. O rapaz que um dia está com arma  e cigarro de maconha na mão, depois de tomar o chá, no outro dia, está com a Bíblia e com a palavra de Deus”, salienta Darci.

Padre passou a compreender Bíblia

Entre os tantos seguidores da doutrina do Ayahuasca no Distrito Federal, há, inclusive, um padre. Antônio Piber conta que chegou até o chá durante uma crise que teve e uma série de questionamentos quanto às palavras que pregava na igreja. 

“Eu compreendi verdades da Bíblia. Compreendi a Virgem Maria. Compreendi o papel dela. Eu compreendi aquilo que o Chico Xavier disse: a hóstia é uma luz que o padre dá, e quem recebe se encaminha para a luz de Deus. E eu celebrava a missa sem ter essa compreensão. É uma experiência difícil de explicar”, lembra o padre. 

Visão do Preto Velho

Em uma das sessões de Ayahuasca, conta Antônio Piber, chegou a ver, inclusive, um Preto Velho. “Eu estava indo ao banheiro e senti que tinha alguém ali e era um trabalho fechado. E essa presença era humana, de verdade. Não era incorporado”, lembra. 

Ele acrescenta que, nesse dia, só havia quatro pessoas no local. “E eu me virei e, então, vi o Preto Velho, o ser de luz. E esse ser de luz se levantou, juntou as mãos e disse: ‘a benção, padre’. E eu concedi a benção. E era um período em que eu estava em crise, repleto de preconceitos. Nesse momento, percebi isso”, salienta o padre Antônio Piber.

“Quantas vezes vocês viram uma baleia rosa voando aqui perto da igreja?”, questiona Betto Maia, um dos dirigentes da Aldeia Amor Lakota, para os outros seguidores da doutrina. 

“Isso seria uma alucinação. Algo que não existe. Quando o padre fez o trabalho, ele viu um Preto Velho. Um questionamento que estava dentro dele”, responde o coronel aposentado, afirmando que o chá do Santo Daime não é um alucinógeno. “Não são alucinações. São verdades, respostas que estão dentro de nós. É como um sonho”, destaca o dirigente Betto Maia.

“Transformação” após entrar para doutrina

Um jovem que participa dos trabalhos da doutrina dá seu testemunho e assegura que se trata de um chá puramente ligado à espiritualidade. “Não é uma droga. Eu estava perdido da minha fé antes e sabia que estava faltando algo. Passei a vida inteira buscando uma coisa que, quando eu cheguei à vida adulta, foi por água abaixo”, revela  Thomas Ribeiro, de 23 anos.

Foi aí que ele, então, começou a usar drogas. “Eu bebia, fumava. E eu não estava bem, não estava feliz. Comecei a questionar Deus. Onde está Deus? E eu me encontrei aqui. As respostas vieram da Ayahuasca, mas estavam dentro de mim”, diz.

Ele e a mulher, Graziela Cruvinel, também de 23 anos, seguem a doutrina há dois anos. Segundo eles, ambos estavam totalmente perdidos antes de tomar o Ayahuasca.

“Minha mãe estava ficando louca comigo. Eu só dava trabalho. Ia para trances, festas. Usava drogas. Agora não. Encontrei Deus dentro de mim. Não sou viciada em nada, vivo bem. Ayahuasca não vicia. Não é uma droga. Ele me traz respostas. Me ajuda a continuar no meu caminho”, fala a jovem, que teve uma filha, hoje com nove meses, com Thomas.

“Não tem risco”

Um dos dirigentes do instituto Aldeia Amor Lakota, Darci Feitosa, também defende que a bebida não é viciante. “Tenho o cipó e a chacrona aqui em casa. Eu tenho Daime à vontade e não tomo fora dos trabalhos. O princípio ativo da Ayahuasca é da DMT (dimetiltriptamina). E o nosso corpo produz a DMT normalmente. Mas tem duas fases na nossa existência em que essa substância é produzida em quantidade maior: quando nascemos e quando morremos. E a quantidade de DMT que tem no chá é de 0,025. Para   ser considerada uma droga, teria de ter cem vezes mais, segundo os padrões internacionais de drogas. Então, não tem risco”, assegura.

Saiba mais

O corpo de Rian Brito, neto de Chico Anysio, foi encontrado, após afogamento, no dia 3 deste mês, no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, no Rio de Janeiro. Segundo a delegada da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) do Rio de Janeiro, Ellen Souto, o calor aliado ao jejum podem ter causado alucinação em Rian. 

O jovem tinha o hábito de meditar em locais de natureza selvagem e jejuar, o que, segundo seus pais, começou após o uso de Ayahuasca. Após ingerir a bebida, afirmou o pai, ator Nizo Neto, ele começou uma “coisa espiritual”, entrou em um delírio de que tinha uma missão e que, para isso, não podia comer. Segundo ele, o filho comia o mínimo para sobreviver e chegou a pesar 45kg.

Psiquiatras questionam

Na avaliação da psiquiatra da Associação Médica de Brasília (AMBr) Renata Figueiredo, o uso do chá de Santo Daime é questionável. Segundo ela, Ayahuasca é uma combinação de plantas com efeitos psicoativos. Por isso, frequentemente, são relatadas “alucinações, com percepção alterada dos sentidos, alterações do pensamento, concentração, atenção, memória e julgamento; alterações emocionais como êxtase e até mudanças na percepção corporal”, aponta.

A psiquiatra, porém, salienta que não é possível afirmar que o chá fará mal a todos aqueles que o ingerem. “Não se pode, preliminarmente, determinar em quais indivíduos ou mesmo precisar quando esses poderão apresentar algum transtorno psiquiátrico em decorrência do uso das ervas. É certo que a probabilidade de ocorrência aumenta nas pessoas com histórico psiquiátrico ou predispostos geneticamente”, explica.  

Por isso, Renata analisa, “partindo do princípio de que a droga pode desencadear transtornos mentais, inclusive surtos psicóticos em pessoas predispostas geneticamente, podemos afirmar, baseados em pesquisas, que seu uso é problemático”.

Segundo Renata, ao contrário do que afirmam os defensores do uso das plantas para fins medicinais, a Ayahuasca não é recomendável para tratamento da depressão, por exemplo. “É sabido da existência de estudos sobre o tema, mas as pesquisas ainda são incipientes, devendo-se aguardar conclusão científica acerca da eficácia do uso terapêutico da substância, sobretudo da sua segurança”, afirma.

Outra psiquiatra, especialista em dependência química, Helena Moura assegura que o Ayahuasca é um alucinógeno. “É uma categoria mais diversa, com várias substâncias”, afirma. “Os alucinógenos alteram a percepção da realidade. Os nossos cinco sentidos se confundem um com o outro. Isso é a característica principal dos alucinógenos. Essa alteração na capacidade de perceber a realidade”, explica.

Bebida pode causar transtornos

Psiquiatra, especialista em dependência química, Helena Moura salienta que o maior risco na ingestão do chá é justamente a vulnerabilidade de algumas pessoas predispostas a alterações permanentes da mente. 

“Isso pode acabar se prolongando”, afirma. “Ainda que a pessoa não faça uso frequente, as alterações podem persistir. Por ser alucinógeno, o chá pode causar transtornos relacionados ao uso da substância. A psicose é a mais recorrente no caso do Daime”, completa Helena.

Por fim, a psiquiatra destaca que é importante debater o uso do chá de Santo Daime. Segundo ela, “por não ser proibida, a ingestão da bebida gera a sensação de que não tem riscos”. No entanto, aponta, “pode trazer consequências muito graves”.

Saiba mais

A corrente mais famosa do chá de Ayahuasca é conhecida como União do Vegetal (UDV).

O uso religioso do chá foi legalizado no Brasil em 2006. Mas, em 2010, as normas para usar a bebida foram reeditadas. Na época, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, por meio do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), publicou, no Diário Oficial da União, resolução com regras que regem o uso das plantas.

Crianças também podem ingerir a bebida. Mas, segundo a Resolução do Conad, elas devem estar acompanhadas pelo responsável legal. 








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