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Intolerância em Ariquemes: valores, família e Estado
A teoria da democracia já nos ensinou sobre isso. Para nos afastarmos do risco de uma ditadura abrimos mão de um mundo que seja singularmente nosso desde que todos façam rigorosamente o mesmo. Chegamos assim ao nosso mundo
Publicado Terça-Feira, 31 de Janeiro de 2017, às 07:59 | Fonte Autor: Humberto Dantas Fonte: Estadão 0
http://www.ariquemesonline.com.br/noticia.asp?cod=320447&codDep=33" data-text="Intolerância em Ariquemes: valores, família e Estado
  
 
 

animação tolerância by reneschubert 2016 03 27

Nós podemos escolher em que mundo viver. No primeiro as características dos indivíduos podem até lhe incomodar de alguma forma, mas você opta pela tolerância, por vencer seus preconceitos e medos, por lidar com as diferenças e tratar com naturalidade quem não é, simplesmente, igual a você. Por sinal: existe alguém igual a você? Nem meus colegas de Estadão, os jovens e queridos gêmeos da educação política, são. Olha só!
No segundo você pode alimentar as diferenças levando-as ao limite da intolerância, do conflito, do incômodo agressivo. Ser diferente de você, e principalmente do grupinho ao qual pertence e dentro do qual se sente forte e à vontade, lhe oferta o direito de ser agressivo. A intensidade dessa agressividade pode variar. De posturas, frases e negações às atrocidades físicas que machucam a alma e o corpo. Sob essa opção é bom que você também esteja preparado para ser minoria, para ser “o diferente odiado”. Isso representa dizer: quem bate corre o risco de apanhar. Mas precisamos que seja assim? Devemos mesmo chegar a tal ponto?
 
A teoria da democracia já nos ensinou sobre isso. Para nos afastarmos do risco de uma ditadura abrimos mão de um mundo que seja singularmente nosso desde que todos façam rigorosamente o mesmo. Chegamos assim ao nosso mundo, e não ao seu, tampouco ao meu. A versão plural, claro, precisa ter limites também, para que maiorias não achatem minorias. A partir disso estaríamos acordados: e viveríamos em paz. Simples? Nada disso!
Quem deve ser o responsável por esses valores? Para muitos as famílias. Mas a primeira pergunta é: todos têm famílias? E a segunda é: todas elas estão preparadas para a disseminação consciente e razoável de tais valores? Sugiro que não, e o ideal é que o Estado seja o porta-voz formal da disseminação desses valores essenciais de convivência, reconhecimento mútuo e tolerância. Pois bem. Mas e quando os políticos são os símbolos maiores da intolerância contra as pessoas que possuem características diferentes das suas?
 
Em Ariquemes, interior de Rondônia, vereadores foram ao prefeito e exigiram que páginas de livros didáticos enviados pelo MEC fossem suprimidas do material sempre que tratassem de questões de gênero e uso de preservativos. E ele acatou. Em reportagem do G1, o vereador Amelec da Costa (PSDB) – não coloque um “a” no fim do nome para não demonstrar intolerância ou cometer o que estamos combatendo aqui – afirmou que cabe às famílias tratarem de tais questões. E que a ESCOLHA da sexualidade é do sujeito no futuro, sem que o Estado o estimule a fazer certas opções por meio de livros didáticos. Parado no tempo, o edil ainda não entendeu que sexualidade é característica e não opção – ou seja, o homossexual que “escolhe” não ser homossexual apenas está “optando” por escamotear uma característica que lhe é natural, o que provavelmente o destinará à infelicidade e às frustrações associadas ao medo e à violência de nossos tempos.
 
Estacionado em seu preconceito e no conservadorismo que graça em parcelas de nossa população, o vereador vai adiante e “acredita” sem qualquer pesquisa para ampará-lo que 90% da população local é favorável à ideia. Perfeitamente. Eu partiria dessa hipótese também, sobretudo numa realidade em que o ensino religioso está presente nas escolas, algo que efetiva, definitiva e exclusivamente deveria ser tratado na família e nas igrejas. Perceba: o estado troca o ensino da característica pela disseminação da opção. Ensina a opção religiosa, mas ataca e evita a característica da homossexualidade. Será que é assim que devemos educar nossos filhos? Impondo-lhes a opção divina com a qual desejam se associar ou não, e lhes escondendo o debate tolerante sobre as características dos indivíduos sobre as quais não existem escolhas?
 
Para completar, olhemos os dados oficiais do Datasus para verificar “a importância” de retirar os preservativos do debate escolar. Nos documentos oficiais me deparo novamente com o “desafio de nos orgulharmos” de parar no tempo. Ariquemes não é diferente de muitas cidades brasileiras, e por lá o Ministério da Saúde, a despeito de uma estatística que demanda atualização urgente, apontou que quase 18% das causas de internações de jovens de 10 a 14 anos ocorriam por motivo de PARTO em 2009. Na faixa seguinte, de 15 a 19 anos, esse percentual sobe para alarmantes 71%. Prefiro não supor que alguns políticos locais, e “uns 90% da sociedade”, reforçariam a ideia de que “mulher é mesmo pra procriar, e o mais cedo possível”. É isso mesmo que desejamos pra nossa sociedade? Tirar o preservativo e a sexualidade do livro didático é, realmente, atitude de quem vive em outro mundo.
 
E olha que nem vou voltar ao começo desse texto pra tentar desvendar se vivemos no primeiro ou no segundo mundo descritos, e tampouco vou discutir o papel do Estado novamente. Deixo apenas um trecho da reportagem citada: “conforme o Poder Executivo, todas as páginas de livros didáticos que falem ou mostrem diversidade sexual, casamento homossexual ou uso de preservativos serão suprimidas”. Pode chorar.
 
Tags: Ariquemes, sexualidade, Amelec da Costa, preconceito
 
Autor: Humberto Dantas
Fonte: Estadão
 
 

 








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