Caçador de diamantes canadense está prestes a começar a extrair pedras preciosas na Bahia
Após mais de duas décadas procurando diamantes em países africanos, o geólogo canadense Kenneth Wesley Johnson, 57 anos, está prestes a começar a extrair a pedra preciosa no sertão da Bahia.
Publicado Segunda-Feira, 25 de Maio de 2015, às 11:05 | Folha.com - BRUNO VILLAS BÔAS DO RIO

 

 
Após mais de duas décadas procurando diamantes em países africanos, o geólogo canadense Kenneth Wesley Johnson, 57 anos, está prestes a começar a extrair a pedra preciosa no sertão da Bahia. Sobrevivente de duas guerras civis e malárias na África, Johnson investe R$ 137 milhões numa mina em Nordestina, a cinco horas de Salvador.
 
Leia abaixo o depoimento.
 
O meu pai era cardiologista e queria que eu seguisse seus passos. Cheguei a cursar um ano de medicina, mas gostava mesmo de atividades ao ar livre. Fiz uma aula de geologia e gostei. Sonhava viver aventuras.
 
Nasci em Windsor, no Canadá, fronteira com os EUA. Quando me formei em geologia, era 1982 e comecei a trabalhar explorando ouro, cobre e metais básicos no Canadá. Uma década depois, houve grandes descobertas de diamantes no mundo.
 
Eles são encontrados em lugares como África Central, Rússia e Brasil. É preciso uma formação rochosa bem específica. A empresa em que eu trabalhava decidiu me enviar para a África.
 
Desembarquei na República Centro-Africana em 1994. Fui explorar diamantes numa montanha 300 km ao norte de Bangui, a capital. De carro levava um dia e meio para percorrer essa distância. É o lugar mais pobre da Terra.
 
Vivi dez meses em uma casa de palha no meio da floresta. Dormia no chão. Para comer, além de pescar, caçava porco do mato com um velho rifle. Eu sabia usá-lo porque no Canadá você precisa se defender dos ursos. Para beber, era água e vinho barato.
 
Trabalhava de domingo a domingo. Depois de meses comecei a sentir febre, dores. Demorei dias para entender que tinha malária. Anos mais tarde, tive de novo. Tenho malária no sangue até hoje.
 
Durante um voo, em 1995, vi garimpeiros num rio entre duas montanhas. Pedi a localização ao piloto e comecei a estudar a geologia da região.
 
Quando chove, o ouro se solta das montanhas e desce o rio. Segui o caminho contrário: subi as montanhas.
 
Descobri lá um depósito de 1,5 milhão de onças de ouro, chamado Passendro. Vendi para a empresa canadense Axmin, mas não foi para a frente por causa das guerras.
 
No Zaire [atual Congo], estávamos explorando uma mina no rio Tshikapa quando o ditador Mobutu Sese Seko foi assassinado. Cruzamos o rio sob fogo cruzado até Brazzaville, onde nos instalamos no hotel Hilton e
ficamos em relativo conforto ouvindo a guerra do outro lado do rio.
 
O filme "Diamante de Sangue" é bem preciso. Vi coisa parecida na República Centro-Africana. Jovens e pobres eram colocados para procurar diamantes. Os compradores ofereciam comida, rádio de pilha, o que criava uma dívida. Passavam a trabalhar como escravos para pagá-la.
 
A minha experiência no continente africano durou duas décadas e não foi bem-sucedida. Não desenvolvi uma mina de classe mundial.
 
Segui então para a Venezuela, mas em dez dias entendi que eles não respeitam a propriedade privada. Decidi buscar um novo lugar.
 
Onde mais tem diamantes? No Brasil. Primeiro, fui para Rondônia. Fizemos descobertas, mas a quantidade e a qualidade dos diamantes eram baixas e fomos obrigados a procurar outro lugar.
 
Seis anos atrás conheci minha mulher aqui. Fazia a contabilidade de contratos para mim. A personalidade dela me atraiu. Estou há três anos e meio no Brasil. Temos uma filha de três anos e moramos em Lauro de
Freitas, próximo de Salvador.
 
Meu projeto agora fica em Nordestina, sertão da Bahia. A área havia sido explorada no passado pela De Beers, que desistiu. Comprei o direito em 2005. Estou investindo R$ 137 milhões com sócios canadenses e europeus.
 
Na região muitas pessoas vivem de Bolsa Família. São pobres para os padrões brasileiros, mas, comparados ao que vi na África, têm vida de rei. Há muita dificuldade, mas têm água e energia.
 
A jazida não é grande, mas há um diamante de qualidade top 5 do mundo e tem potencial para aumentar em sete vezes a produção anual de diamantes do Brasil. Vamos começar a produção em escala em janeiro do ano que vem.
 
Sou o único gringo da Lipari, graças a Deus, porque é bem difícil entender a legislação e a burocracia.
 

Gosto de trabalhar aqui, mas o Brasil não é barato.