A miss Jaru – Por Osmar Silva
A beleza da moça logo foi notada na cidade. Tanto, que acabou eleita Miss Jarú, o distrito mais importante de Ariquemes.
Publicado Segunda-Feira, 18 de Maio de 2015, às 10:01 | da Redação

 

Osmar Silva

Osmar Silva

Cícero Cabeça de Pato, homem avantajado, conversador e contador de estórias, tinha vida econômica em Campo Novo, distrito de Porto Velho, onde era influente líder político. Mas morava em Ariquemes, onde ficava sua família, guardiã da sua bela filha. Uma morena de curvas generosas, cabelos cor da graúna, sorriso fácil e faceiro. Orgulho da família. Um tesouro.
A beleza da moça logo foi notada na cidade. Tanto, que acabou eleita Miss Jarú, o distrito mais importante de Ariquemes. Uma verdadeira cidade, onde os irmãos João e José Gonçalves eram os primeiros do dia a abrir as portas do armazém e os últimos a fechar. Na verdade, a moça – que, se não me falha a memória, se chamava Jussara - ficou em segundo lugar no certame de beleza, realizado, senão me engano, no Clube do Gesa, na Avenida Jamari, a mais importante da cidade. Mas de tão bela, os organizadores resolveram homenageá-la dando-lhe o primeiro título de beleza do Jarú, que por sua vez, sairia também prestigiado.
Dizem que teve o dedo de gente importante nessa decisão, como o do já famoso Teixeirão ou do galã Chiquilito, prefeito de Porto Velho, amigos da família da moça. Amizades das quais o Cícero muito se orgulhava. Afinal, ele era um importante personagem política de Campo Novo. Respeitado por todos e bem recebido pelos chefes dos executivos de Rondônia e da Capital. Gente que, para fazer valer sua vontade, não precisava estar na festa.
Jarú, então administrado por Sebastião Mesquita, nomeado por Francisco Sales, prefeito de Ariquemes, não gostou da novidade. Embora reconhecesse os méritos estéticos da ‘sua’ miss, questionava o fato da moça morar em Ariquemes, ser de Campo Novo, ter sido ‘apadrinhada’ pelo povo de Porto Velho e nem sequer conhecer a cidade que representava.
Mas a dinâmica da sociedade na construção do novo estado, que recebia diariamente centenas de migrantes de todas as partes do país para ocupar o novo ‘El Dorado’, diluiu esses sentimentos. A música mais ouvida vinha do ranger das motos serras, do amanhecer ao anoitecer. Nas cidades, distritos, vilas e nos projetos de assentamentos que invadiam a selva inóspita. Entre esse cantar, o agudo assovio do seringueiros na copas das árvores altas e as melodias de Zé Rico e Milionário, Mato Grosso e Matias, Sérgio Reis e tantos, embalando o levantar dos copos de cervejas nos breves momentos de descanso.
A Mídia nacional do governo federal recomendava ocupar para não entregar, derrubar para tomar posse. Sem isso, o parceleiro perdia a Ordem de Ocupação da terra expedida pelo Incra.
Os prefeitos derrubavam as matas urbanas e distribuíam as terras para os chegantes. Lotes para moradia, comércio e indústrias predominantemente, madeireira. De graça. Nesse ambiente quem tinha tempo para ficar discutindo a eleição da Miss Jaru?
O certo é que logo o assunto perdeu força. Vez ou outra entre um gole de cerveja alguém relembrava o caso e o encerrava às gargalhadas. Como dizia o padre Carlos Naldi, vigário do Jaru: logo seremos município e teremos nossa própria miss. Não será preciso importar.
Perdi o contato com a família. A última vez que vi o Cícero foi em Campo Novo, após ajudar deglutir uma formidável tartaruga, oferecida ao coronel Jorge Teixeira, amigo do peito do anfitrião. Mais tarde soube que a bela Jussara fora contratada, pelo prefeito da Capital, para trabalhar em Porto Velho. Hoje, lamentavelmente, não sei do destino desta pioneira família inscrita na história da colonização de Rondônia. 

OsmarSilva - jornalista – sr.osmarsilva@gmail.com