DESUMANO: SISTEMA DE "ESCRAVIDÃO" NA ZONA FRANCA DE MANAUS
Publicado Segunda-Feira, 30 de Julho de 2012, às 12:13 | D24AM

 

Condições de trabalho no Polo Industrial de Manaus são semelhantes às da China

Carga horária excessiva e baixos salários em algumas empresas do Polo Industrial de Manaus são parecidos com sistema de trabalho adotado na China - criticado por ser desumano.

[ i ] Parte das empresas do PIM é colocada em xeque com os resultados das ações de fiscalização.

Manaus - Informações sobre as condições de trabalho no Polo Industrial de Manaus (PIM) revelam que a realidade enfrentada por trabalhadores locais está próxima das condições dos industriários chineses.

A situação das fábricas chinesas tem sido discutida depois que vieram à tona denúncias sobre as péssimas condições de trabalho oferecidas pela gigante dos eletroeletrônicos Foxconn, que também possui uma planta industrial em Manaus.

Entre os problemas apontados por instituições de defesa das condições corretas no ambiente de trabalho, estão os baixos salários pagos pela empresa e a pesada carga horária imposta aos trabalhadores. Quem se impressiona com o que vem acontecendo do outro lado do mundo pode não perceber, mas a situação dos trabalhadores do PIM não está distante da realidade chinesa.

O Estado é o campeão brasileiro de afastamentos por Lesões por Esforço Repetitivo (LER), de acordo o chefe do setor de Segurança e Saúde no Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho do Amazonas (SRTE-AM), Josemar Franco. Os salários locais estão entre os mais baixos do País, mesmo com um dos maiores custos de vida.

Na semana passada, depois das denúncias, a Foxconn chinesa anunciou um aumento de 25% no salário de seus trabalhadores, o que elevaria o rendimento mensal para US$ 400, cerca de R$ 700. No PIM, pelo menos 37% dos trabalhadores recebem salários que variam entre R$ 622 e R$ 933, segundo os Indicadores de Desempenho da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa)

A carga horária de trabalho na China é de 14 horas, em média, o que também não está muito distante do PIM. De acordo com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, Valdemir Santana, a carga média de trabalho é de dez horas ao dia. Diferente da China, no entanto, os operários de Manaus normalmente moram distante de seus locais de trabalho.

“Contando com os deslocamentos, o trabalhador passa 14 horas do seu dia à disposição da fábrica e tem apenas as dez horas restantes para ficar com a família, estudar e descansar. Esse tempo é muito curto, muitos dormem menos de cinco horas por dia e acabam tendo uma vida muito parecida com a da escravidão, pois eles vivem em função do trabalho”, afirma.

Além da jornada exaustiva, é comum que empresas ignorem o dia de descanso semanal exigido por lei e excedam a carga máxima de trabalho por dia.

O motorista Renato Silva Lima, 25, trabalhou por cerca de cinco anos em linhas de produção do Distrito Industrial. O profissional relata que em um dos turnos, cuja carga era de seis horas diárias, trabalhava de segunda a segunda. “Não tinha tempo para nada. Só tínhamos um dia de folga por mês”, conta.

Segundo Josemar Franco, carga horária exagerada e falta de segurança no trabalho são os tipos mais comuns de autuações de indústrias no PIM. “A lei determina oito horas de trabalho por dia, que pode ser acrescido de no máximo mais duas horas, mais do que isso não é permitido, mesmo que a empresa pague, mesmo que o trabalhador queira. As empresas deveriam cumprir, mas há uma grande diferença entre dever e cumprir. Na prática chega até 12 ou 13 horas de trabalho”, afirma.

Franco observa que o excesso na carga horária aumenta os riscos de acidentes no ambiente de trabalho, além de o esforço repetitivo comprometer a saúde do trabalhador.

No ano passado, a SRTE-AM fiscalizou 560 empresas do PIM, onde foram lavrados 200 autos de infração referentes à jornada de trabalho acima do permitido. Outro grande problema identificado nas empresas é a falta de segurança das instalações. Em 2011 a SRTE emitiu 482 autuações a 184 empresas por problemas na segurança, onde 58 máquinas que ofereciam risco à saúde dos trabalhadores foram interditadas e seis inutilizadas permanentemente.

“Ao invés de descartar máquinas velhas, muitas empresas do Sul e Sudeste vendem seu maquinário usado para empresas do PIM. O empresário sabe que é errado, mas compra a máquina “depenada”, como chamamos aquela que não possui os equipamentos básicos de segurança. Além disso, eles não fazem a manutenção e, por mais importante que seja o funcionário utilizar o Equipamento Pessoal de Segurança (EPI), não existe luva que impeça que um empregado perca uma mão ou um dedo”, observa Josemar Franco.