CAMPANHAS, DISCURSOS E FATOS CONCRETOS; POR: CONFÚCIO MOURA
Publicado Segunda-Feira, 30 de Julho de 2012, às 11:14 | CONFÚCIO MOURA

 

Sou político e morri. Não poderia ir pra outro lugar, inferno. Também pudera a política já é mais ou menos igual. Como se tivesse lá.  Estou lá embaixo no meio do maior agito geral.  A coisa é quente. Fazer o quê no céu, aquela mornidão, só gente tomando passe, para se acalmar ainda mais, serenidade, ninguém briga, ninguém grita, silêncio de caverna. Não dá. Político não merece tanto. Aqui tem forró, pífanos de Caruaru, gritaria, gente na porta clamando, desesperados, homem batendo em mulher, minissaia, topless, pura vanguarda. E ali na frente tem um comício.

Vinha de Cujubim no sábado. A estrada em obras, mais ou menos um calvário. Ciro Andrade vinha contando história. Eu rindo. No inferno também se ri.  O carro cheio, calorão de abafar, homens gordos, espaços estreitos, de vez em quando dançar a coluna, estremecer os músculos e ouvir conversas, sempre políticas, sem parar. De vez em quando o adversário pena, ele é o próprio Satanás. Agmar Piau, ano de 88, campanha de Prefeito em Ouro Preto do Oeste. Gleba Aninga e Fazenda Triângulo invadidas. Pistoleiros pra todo lado. MST não agia por aqui.  Só posseiros valentes.  Lá na fundiária da Triângulo havia eleitores de Ouro Preto. Acampados na resistência.

Vereador José  Martins chamou Piau, vamos lá, tem gente. E foram no fusca.  Mais três companheiros. Naquele tempo petista também era companheiro. Estrada péssima, carreador ruim, lá se foi, penando no aperto, lentos e quase parando, cinco horas de sacolejo. Tonteira, estômago embrulhando, manto de poeira no corpo inteiro. Noite escura e nem o céu se via. Trinta pessoas da roça, sofridos, lá no fundo, lamparina acesa, lusco-fusco, Rosaria Helena estava junto, era a vice.  Piau idealista, com PT na cabeça, discursinho na ponta da língua. Estes latifundiários ladrões, cheios de capangas e pistoleiros, matadores de aluguel, põem gente pra matar trabalhadores. E pau e pau e pau. Como é que pode um homem ser pistoleiro? Receber dinheiro para matar um inocente? É o fim do mundo. Estamos ainda, companheiros, no tempo da escravidão. Estas fazendas imensas só para um dono. Absurdo. Latifúndio improdutivo. Pistoleiro é degradação humana.  E emoção total. Rosária deu sinal, ele não entendeu, entusiasmou ainda mais. Pensou que era para aumentar o tom. Falou da causa socialista, de Cuba, do grande líder Fidel Castro, do Che Guevara. Rosário dando sinal. Ele sem entender. Daí a pouco virou o rosto, atrás cinco pistoleiros, armados até os dentes, Piau olhou, respirou fundo, não mudou o tom, mas, num lance heróico e salvador, assim tão de repente, como se mudasse o canal da TV... “no entanto, pistoleiro também é um trabalhador. A gente tem que compreender a situação, é pai de família, muitas vezes está até desempregado, e aceita a situação, mas, no fundo é gente boa”.

A festa era grande, Luiz Passoni era Presidente da Câmara de Cujubim, tudo cheio, sem nenhuma cadeira, gente em pé, calor pra chuchu, vereador de paletó e gravata, sufocação, como se tivessem dentro de um caixão de defunto. Sessão solene para assinatura da nova LEI ORGANICA DO MUNICIPIO.  Secretário trouxe a lei para o Presidente sancionar. Na frente de todo mundo, elegante e solene, ele pegou o carimbo. E começou a carimbar, todo mundo olhando, braço elevado e pá e pá e pá. Bem alto. Logo depois do discurso magnânimo. E pá e pá. Na hora de assinar, tinha batido o garimpo de cabeça pra baixo, virou a página e assinou tudinho plantando bananeira.

Era a primeira campanha do Edson Martins, para Prefeito de Urupá, ano de 1996. Ele evangélico solene, Maria José ainda mais, em tudo metia o nome de Deus, se for para sua honra e glória quero ser eleito, só se Deus quiser, estou aqui em nome da causa, e se for da vontade Dele. Foi a primeira reunião na linha. Sem luz elétrica. Ele no maior ideal. Muita gente, como se fosse uma festa. Ele discursou pela primeira vez. E falou de Deus e dos homens. Do seu propósito com Urupá. Antes dos vereadores falarem começou lá fora uma briga. Depois ninguém mais controlou. A cerca de bambu foi desmanchada, cada palanque no bambu virou flecha. Briga no escuro. Todo mundo virou inimigo. Gritaria. Edson agarrou Maria José, foi pra cozinha, aquietou-se na beira do fogão e pau quebrou lá fora. Só grito. Me socorre que estou furado. Final das contas, cinco pessoas caídas no chão, peitos e barrigas perfuradas por facas e pontas de bambus. Outros tanto machucados, ensangüentados.  Edson pensou em largar a campanha. Era um aviso de Deus. Coisa horrorosa. Maria José chorou demais.  Levaram os doentes para Ji-Paraná e Alvorada. Um deles salvou por pouco, teve até na UTI entre a vida e morte. No fim ele ganhou a eleição.

E eu continuei aqui, no bem bom, caliente, Vermelho x Amarelo. Alice só levou uma pedrada na cabeça. Que nem foi muito assim. Quebrou um carretel de coluna, foi parar na mesa de operação em Goiânia. Abriu o pescoço para colocar pinos de titânio, placas importadas, quinze mil reais só de ferragem. No aeroporto quando passa no detector de metal apita. Toda vez. A moça da Polícia Federal procura no corpo dela arma. Não acha. E que mistério é este? Esta mulher engoliu uma pistola. Só pode ser. Não é. É a placa de titânio. Pelo menos, neste inferno vivo, ela ficou bem diferente das outras, ela apita no aeroporto. Não é uma glória?